Mundiais de Tóquio: Isaac Nader e o assalto à portuguesa nos 1 500 m
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Em Tóquio, os 1 500 m masculinos tiveram um final digno de um thriller. Quando Jake Wightman parecia encaminhado para o segundo título mundial, o português Isaac Nader apareceu nos metros finais para arrancar o ouro, deixando um britânico atordoado e um pelotão abalado por peripécias e lesões.
Foi uma corrida à Gressier ou à Beamish, fica ao vosso critério. O português Isaac Nader protagonizou o assalto perfeito na pista de Tóquio, esta quarta-feira, na final dos 1 500 m dos Campeonatos do Mundo. Ainda assim, tudo parecia preparado para Jake Wightman, campeão mundial surpresa em 2022 e a caminho do segundo título, mas Nader surgiu nos últimos 30 metros para passar toda a gente. Tempo: 3’34’’10, apenas dois centésimos à frente do britânico (3’34’’12). O pódio ficou completo com o queniano Reynold Cheruiyot, medalha de bronze em 3’34’’25, numa final que foi a mais lenta desde a masterclass do americano Matthew Centrowitz nos Jogos do Rio, em 2016.
Uma corrida cheia de reviravoltas
O guião, porém, escreveu-se em vários atos. Quinto classificado em 3’34″52, o convincente Niels Laros, sexto nos Jogos de Paris e vencedor das duas últimas corridas da Diamond League, colocou-se desde logo na frente, ao lado de Timothy Cheruiyot (4.º em 3’34″50). Entre os 500 e os 700 m, o ritmo baixou, quase demasiado, antes de o veterano queniano voltar a acelerar a sério. Estava preparado o terreno para uma batalha final explosiva. A 500 m da meta, Jake Wightman lançou o ataque. Por momentos, pareceu que estávamos a reviver o golpe de génio de Eugene 2022: o britânico, igualmente confortável nos 800 m, assumiu a liderança, abriu vantagem e parecia lançado para o segundo título mundial.
Mas, na curva antes da última volta, o compatriota Josh Kerr lesionou a barriga da perna direita e perdeu todas as esperanças. No fundo do pelotão, o campeão mundial em título lutou até ao fim para terminar a coxear, corajoso, mas muito, muito longe (14.º em 4’11’’23). E na reta final surgiu o inesperado vencedor da milha do meeting da Diamond League de Oslo, lançado como um sprinter, para roubar a glória a Wightman. Foi um choque para o atleta que nunca tinha passado de dois quartos lugares nos Mundiais de pista coberta (2024 e 2025) e que ainda corria a distância em 3’36″50 aos 23 anos (melhor marca de 3’29″37 esta temporada).
A 24.ª medalha portuguesa na história dos Mundiais
« Nos últimos 100 metros, acreditei plenamente em mim, reagiu ainda na pista o medalha de bronze dos Europeus de pista coberta de Apeldoorn, em março. Sabia que o Jake (Wightman) ia lutar até ao fim, por isso atirei-me. Provavelmente foi a primeira vez que o fiz na minha carreira, mas não podia correr o risco de perder um título mundial. No fim, resultou! Não tenho palavras para descrever o que aconteceu. (…) Algumas pessoas criticaram-me e disseram que nunca conseguiria, mas aqui estou eu, campeão mundial. Infelizmente, não consegui ouvir a equipa portuguesa a incentivar-me porque o público aqui é muito ruidoso. É apenas um dos meus sonhos concretizados, o outro terá de esperar até 2028. Ganhar o ouro em Los Angeles não é uma promessa, é simplesmente um sonho. »
Este título dá a Portugal a primeira medalha na capital japonesa e lança Isaac Nader para a história. O oitavo campeão mundial português de sempre, o atleta do Benfica acrescenta também a 24.ª medalha ao palmarés nacional. Na distância, o jovem de Faro, no sul de Portugal, junta-se a uma linhagem ilustre: depois de Carla Sacramento (ouro em Atenas, em 1997, e bronze em Gotemburgo, em 1995) e Rui Silva (bronze em Atenas, em 2004, e em Helsínquia, em 2005), Nader conquistou a quarta medalha portuguesa numa especialidade que se tornou uma marca lusitana.
Um pódio sem os gigantes nem os portugueses
Esta final já tinha perdido vários pesos-pesados pelo caminho, incluindo dois noruegueses com currículos de respeito. Jakob Ingebrigtsen, campeão olímpico em título, ficou pelo caminho logo nas séries, debilitado e sem pernas. O compatriota Narve Gilje Nordås não fez melhor, eliminado nas semifinais. Do lado americano, Cole Hocker, campeão olímpico em Paris, foi desclassificado nas semifinais por uma cotovelada na luta final. E os franceses? Nenhum entre os 14 finalistas. O melhor especialista da temporada, Azeddine Habz (3’27″49), e o compatriota Paul Anselmini não passaram das séries, enquanto Romain Mornet ficou pelas semifinais.
Uma final que baralha o xadrez mundial
Num sprint, Isaac Nader mudou de estatuto: de finalista ambicioso, 12.º em Budapeste, em 2023, o meio-fundista de 26 anos passou a campeão mundial. Jake Wightman, derrotado por uma margem mínima, sai frustrado, mas foi o grande animador da corrida. E Reynold Cheruiyot, com apenas 20 anos, confirma-se como o novo motor queniano da distância. Uma prova que passou a ser tão aguardada como os 100 m em qualquer grande competição.
A final de Tóquio provou uma coisa: os 1 500 m continuam a ser uma corrida em que as hierarquias vacilam ao menor deslize. Wightman aprendeu-o da pior maneira, Kerr contra a própria vontade, e Nader aproveitou para inscrever o nome no palmarés, com grande estilo.