«Ok, atletas»: os bastidores com Baptiste Cartieaux
Desde os primeiros anos, divididos entre o BTT e o atletismo, Baptiste Cartieaux já se distinguia dos colegas. Em 2019, começou com Lucas Vivin, parceiro de treino e cameraman, a mostrar os bastidores das competições de atletismo no canal Syblo, no YouTube. O conteúdo conquistou rapidamente um público de várias gerações e deu-lhes vontade de continuar. Hoje, Baptiste é um atleta de múltiplas facetas, várias vezes medalhado internacionalmente em sub-23 e presença habitual no Grand Prix de Duathlon, onde recentemente subiu ao pódio.
✓ Entrevista com @Baptiste.Cartieaux, que nos conta o seu percurso como atleta e o estatuto de youtuber que foi construindo ao longo dos anos. Ao lado de Lucas Vivin, partilha vídeos, treinos, aventuras desportivas e desempenhos impressionantes no canal de YouTube Syblo.
Já passaram sete anos desde que publicou o seu primeiro vídeo sobre BTT. Seguiram-se outros, até começar a mostrar a sério as suas corridas. Pode contar-nos como evoluiu este projeto, desde esse primeiro vídeo até hoje?
Antes do YouTube, eu já fazia bastantes vídeos com o Lucas, o meu companheiro de sempre. Começámos os dois por gravar vídeos humorísticos, que nem sequer publicávamos. A certa altura, avancei porque achava uma pena não partilhar nada. Comecei a falar de BTT, porque tinha montado a bicicleta sozinho, com um quadro chinês. Ninguém tinha documentado verdadeiramente um projeto desses, e isso acabou por me abrir a porta do YouTube.
O Lucas ofereceu-se rapidamente para me ajudar a criar os vídeos. Pensámos que também seria engraçado contar as corridas. Eu já tinha posto a bicicleta um pouco de lado para me concentrar no atletismo. E era mais fácil filmar o atletismo. No início, fazíamos tudo em frente à câmara, com muito poucas imagens das provas. Hoje, quase automatizámos a presença do Lucas em todas as competições, por vezes com outro amigo a ajudar a filmar. Fomos melhorando gradualmente a produção. Agora temos até câmaras onboard.
Lucas Vivin é o seu cameraman de serviço. Pode falar-nos um pouco mais sobre como se conheceram?
Ele está no mesmo meio, mas não pratica exatamente a mesma disciplina. Faz distâncias mais curtas: corre os 400 metros. Não nos conhecemos no clube, mas na escola, no 3.º ano. Aliás, foi ele que me deu vontade de experimentar o atletismo. Nos escalões jovens, disputávamos muitas vezes os corta-matos. Depois, os nossos perfis foram-se diferenciando. Ele seguiu para a velocidade e eu para a resistência. E continuamos aqui. Fomos até selecionados juntos para os Campeonatos do Mundo de Atletismo sub-20, em Cali, em 2022. Partilhar isso com ele foi incrível, porque este é um meio bastante fechado. Conseguirmos lá chegar os dois, juntos, foi incrível. Desde então, treinamos a sério para tentar voltar a viver uma convocatória em conjunto como essa, e fico feliz por poder contar com ele.
Quanto aos vídeos, às vezes trocamos de papéis, mas na maior parte do tempo é ele que está atrás da câmara e eu à frente, porque corro bastante mais do que ele. A época de um velocista é muito mais curta. Nas longas distâncias, pelo contrário, podemos correr durante todo o ano, seja na pista ou na estrada. É por isso que ele aparece um pouco menos no canal, mas está sempre presente.
Cresci numa família bastante ligada ao desporto. Os meus pais corriam maratonas e o meu avô ainda corre quatro vezes por semana, com mais de 70 anos. Tudo isso acaba por influenciar.
Parece ter tido facilidade para correr desde muito cedo. Como explica isso?
Hoje sou quase um atleta profissional, no sentido em que treino com cargas bastante elevadas. Cresci numa família muito ligada ao desporto. E isso acaba por contar: quando os teus pais praticam desporto, quando os vês sair para correr ou andar de bicicleta, quando a alimentação em casa é equilibrada... tudo ajuda. Se comeres mal, o desempenho fica logo mais difícil. Sempre vivi nesse ambiente, mas nunca fui pressionado. É importante dizê-lo. Os meus pais corriam maratonas. O meu avô ainda corre quatro vezes por semana, com mais de 70 anos, o que mostra o lugar que o desporto ocupa na nossa família.
Gostava de ganhar e trabalhava para isso. Quanto mais os anos passavam, mais gostava de correr. O treino foi crescendo comigo: no início, corria apenas à terça-feira com o Philippe, o meu treinador. No ano seguinte, acrescentámos a segunda-feira; depois, as terças, quintas e domingos... Agora treino praticamente todos os dias, muitas vezes duas vezes por dia. Tenho mais o físico de um ciclista, sou bastante «pesado» para um corredor. É também por isso que gosto do duatlo, embora continue a ser uma disciplina pouco valorizada.
O que gosto é deste trabalho constante: conseguir treinar na zona certa, não me desgastar demasiado e continuar a evoluir. Também é preciso aguentar mentalmente, porque o cansaço psicológico pode aparecer rapidamente. No fundo, tudo passa por ajustar bem os vários parâmetros para continuar competitivo ao longo do tempo.
Como lida com o fracasso?
Para mim, o fracasso é apenas uma etapa necessária para melhorar. Tento sempre fazer o melhor possível e, se não resultar, paciência. Consigo relativizar bem as coisas. Se hoje não correu bem, há de correr noutro dia.
Treina atualmente no EACPA. Como funciona o grupo no dia a dia e que papel desempenha Philippe Favreau, o seu treinador, na sua evolução?
Somos um grupo unido e bem estruturado, em que cada um segue um plano adaptado. O Philippe define uma linha geral, mas, à medida que as competições se aproximam, o trabalho torna-se mais individualizado. Não foi o meu primeiro treinador, mas assumiu o meu acompanhamento assim que passei para o meio-fundo. Dei o «salto» logo no 6.º ano, para o grupo dele. Na altura, era o mais novo. Sabia que tinha um bom nível para o meu escalão.
No inverno, participamos todos nos corta-matos, por isso treinamos de forma bastante coletiva. Mantemos sensivelmente os mesmos treinos até à época de pista. O Philippe continua a liderar tudo isto. Mesmo reformado, aparece todos os dias. É ele que mantém o grupo vivo. Se amanhã deixasse de vir, provavelmente a dinâmica não resistiria.
O clube está a evoluir muito. Tive a sorte de chegar no momento certo, quando já havia uma energia muito boa. O EACPA investe, temos um pavilhão para treinar no inverno e isso faz uma diferença enorme. No ano passado, fomos vice-campeões nacionais de clubes. Este ano queremos repetir o resultado e, quem sabe, lutar pelo título!
Como é a sua semana de treinos?
Estamos quase todos os dias no clube. Isso permite manter a ligação social e estar com os amigos. Digo muitas vezes que, se escolhi o atletismo em vez do ciclismo, foi em parte graças ao meu clube. Vimos todos treinar e competir, e isso cria uma dinâmica muito forte.
Da minha parte, treino muitas vezes duas vezes por dia. Normalmente, faço um jogging ou uma sessão curta de manhã. Ao mesmo tempo, estou a estudar Ciências do Desporto. Concluí a licenciatura, mas comecei outra, desta vez em gestão do desporto. Sou eu que organizo um pouco o meu horário. Os três primeiros anos não tinham qualquer flexibilidade, mas este ano fiz um estágio no clube, o que tornou as semanas mais leves. Tenho mais tempo para treinar, descansar e trabalhar noutros projetos. O ponto negativo é que os exames são mais difíceis de preparar quando se vai pouco às aulas.
O que o faz gostar de correr?
Acho que sou uma pessoa que precisa de se mexer. Se um dia já não pudesse correr, ficaria claramente com energia a mais. O desporto ajuda-me a arejar a cabeça, a conhecer pessoas, e também gosto de me superar e de me medir com os outros. Gosto especialmente de poder contar os meus treinos e as minhas corridas. Partilhar faz parte da minha prática. Muitas pessoas dizem-me que começaram a correr depois de ver os meus vídeos. Fico feliz, porque sinto que isso pode inspirar e despertar vocações. E, honestamente, se não tivesse este lado de transmitir o que faço, talvez tivesse desistido em alguns momentos. Há fases em que a motivação baixa e o cansaço se faz sentir. Documentar tudo dá-me uma motivação extra.
Parabéns pelo título de campeão nacional sub-23 e pelo quarto lugar absoluto nos Campeonatos Nacionais de duatlo! O seu treinador fala de um regresso ao seu «ADN». Pode explicar-nos o que quer dizer com isso?
O balanço da época é muito positivo. Fico com boas corridas e com a consistência dos meus resultados, mas sei que ainda tenho aspetos a afinar. Talvez venha a especializar-me. Por agora, enquanto houver convocatórias no atletismo às quais possa chegar, é nisso que me concentro. Este ano percebi que talvez pudesse ser convocado para a seleção de elite de duatlo. Foi por isso que disputei as três primeiras etapas.
Vou correr os 3000 metros nos Interclubes. O objetivo é conquistar uma medalha, mas não será fácil. Não temos atletas de nível muito elevado, mas somos bastante homogéneos e conseguimos conquistar lugares. Como sempre, haverá vídeo. Faço sempre um!
Qual é a próxima corrida prevista? Vai dar origem a um novo vídeo?
A seguir, gostava de me qualificar para os Campeonatos da Europa sub-23. É o meu último ano nos escalões jovens, por isso vou tentar a minha sorte nos 10 000 metros dos Campeonatos Nacionais, a 24 de maio. Os mínimos estão fixados em 29:13 e também é preciso terminar nos dois primeiros. Deve ser possível, mas a classificação não depende apenas de mim. Se conseguir a qualificação, vou concentrar-me noutras distâncias para ganhar velocidade e tentar fazer um bom resultado nos Europeus. Se não resultar nessa prova, talvez tente qualificar-me noutra distância, dando o máximo para lá chegar. Este ano há mesmo muita gente forte, por isso é preciso conquistar o nosso lugar. Logo se verá, mas tenho a certeza de que estarei nos 5000 metros em Maison-Lafitte, no próximo dia 7 de junho.
Sente algum tipo de pressão por ter de competir ao mais alto nível e, ao mesmo tempo, garantir a produção do vídeo?
Pressão, sim e não. De qualquer forma, quero obter o melhor resultado possível, e é por isso que treino tanto. Tenho a sorte de contar com verdadeiros mágicos, capazes de captar tudo. No domingo passado, tentei delegar a função do Lucas, porque ele estava na primeira ronda dos Interclubes, e percebi o quanto ele aprendeu no terreno. Neste tipo de trabalho, o Lucas consegue desenrascar-se melhor do que verdadeiros profissionais da imagem.
Quando vou a uma competição, vou mesmo trabalhar. Tenho imensas coisas para gerir. Entrevistar os atletas depois do duatlo demora-me pelo menos uma hora. Mas é preciso reservar esse tempo. No fim, é isso que dá vida ao evento. Muitas vezes, os meus colegas querem regressar rapidamente ao minibus e eu digo-lhes «5 minutos», quando, na realidade, ainda tenho trabalho para uma hora!
Acha que apresentar regularmente bons resultados aumenta o interesse da sua comunidade?
Essa é a minha grande batalha: conseguir manter-me sempre no topo. Quando estás na frente da corrida, tudo é muito mais interessante e também é mais fácil para a minha equipa filmar. As transmissões em direto estão muitas vezes centradas nos primeiros. Quando começas a ficar no pelotão, ou até para trás, é mais difícil encontrar imagens e, sobretudo, a história no final torna-se muito mais bonita de contar, porque existe sempre a possibilidade de vencer!
Autêntico, Baptiste conquista um público vasto, formado por apaixonados pela corrida e por histórias humanas marcadas pelo desafio. A vontade de evoluir e o desejo sincero de partilhar fazem dele uma voz singular no YouTube, algures entre o desporto e a experiência vivida.