John Tarrant, o «Ghost Runner»
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Durante anos impedido de competir nas provas britânicas de atletismo, John Tarrant, nascido em 1932, entrou para a história com o apelido de «Ghost Runner». Por trás desse nome estava um atleta de altíssimo nível, que nunca abandonou a paixão pela corrida apesar do zelo administrativo das autoridades desportivas da época.
Durante grande parte do século XX, as federações desportivas quiseram proteger o estatuto amador, proibindo rigorosamente os atletas de receber dinheiro pelas suas prestações. Uma regra injusta para quem podia tentar ganhar a vida a correr… Muitos atletas sofreram com esse sistema. John Tarrant faz parte dessa grande família, mas o natural de Stretford nunca desistiu. Correu clandestinamente em inúmeras provas e acabou por encontrar o seu lugar no mundo da ultradistância. Uma breve passagem pelo boxe e alguns prémios modestos deram ao Ghost Runner um destino tão singular… Continua a ser um dos melhores ultramaratonistas britânicos dos anos 1960.
Impedido de representar o país
Quando pediu a filiação à AAA (Amateur Athletic Association), a federação inglesa de atletismo, em 1952, o jovem John Tarrant estava longe de imaginar o destino que o esperava. Na altura, declarou com toda a ingenuidade ter recebido a quantia irrisória de 17 libras por alguns combates de boxe disputados na juventude. O atleta, oriundo dos bairros populares de Manchester, viria a arrepender-se. Foi proibido de competir e de representar a seleção britânica. Uma decisão que se prolongaria, privando-o de uma carreira maior, sobretudo a nível internacional. Porque John Tarrant era um dos melhores corredores da sua geração e passaria o resto do tempo a prová-lo, conquistando a admiração do público inglês. Decidiu continuar a correr apesar da proibição e construiu uma verdadeira carreira como fundista. Alinhava nas provas sem dorsal e continuava a exigir justiça à AAA, agarrada a regras ultrapassadas. A sua perseverança acabou por dar frutos em 1958, com o levantamento de algumas sanções: foi autorizado a regressar às competições nacionais, embora continuasse impedido de representar o país. Logo em 1960, venceu a maratona de Liverpool em 2h22'35 e mostrou que tinha nível para estar entre os melhores britânicos. Começava a vingança do Ghost Runner…
De fantasma a estrela da ultradistância
Nascido a 16 de novembro de 1932 em Stretford, perto de Manchester, John Tarrant cresceu numa família operária. Dotado fisicamente e vindo de um país onde o desporto é um marcador social, o jovem Tarrant virou-se para a corrida de fundo e pediu a licença à AAA depois de disputar alguns combates de boxe remunerados. Suspenso, não desistiu e procurou todos os meios para continuar a competir. Essa busca incansável levou-o para as provas de longa distância, onde a sua resistência e força mental viriam a brilhar. E onde podia obter um dorsal. Em meados dos anos 1960, passou a dominar várias das maiores corridas britânicas em estrada: venceu Liverpool–Blackpool (77 km) em 1965 e 1967, estabelecendo nessa ocasião um novo recorde do percurso. Também triunfou em Exeter–Plymouth (71 km) em 1965, 1966 e 1967, melhorando novamente o recorde da prova, e na Isle of Man Road Race (63 km) em 1965, 1966 e 1967, onde também fixou a melhor marca de sempre. Em 1967 e 1968, venceu a prestigiada London to Brighton (87 km), uma das grandes referências da ultradistância britânica. A nível internacional, conseguiu um notável 4.º lugar na Comrades Marathon, na África do Sul, em 1968, completando os cerca de 90 quilómetros em 6h18'47, e venceu a Gold Top Marathon (80 km) em 5h43' em 1970. Estes resultados demonstram que John Tarrant estava entre os ultramaratonistas mais fortes da sua geração.
Um homem cujo nome não se quer esquecer
A história de John Tarrant tem algo de universal. É a história de um homem comum perante a violência das instituições, quando estas esquecem a sua função primordial: proteger as mulheres e os homens. Quando a regra se esquece da sua essência, surgem situações como a que o inglês viveu. Outros atletas passaram por dificuldades semelhantes. Em França, o destino de John Tarrant lembra o de Jules Ladoumègue, corredor francês também atingido pelas regras rígidas do amadorismo que dominavam o desporto no início do século XX. A diferença é que Ladoumègue pôde prosseguir a carreira nos meetings profissionais, enquanto Tarrant passou vários anos num limbo: afastado das competições britânicas mais prestigiadas, mas determinado a continuar a correr onde quer que lhe fosse permitido. Nas décadas seguintes, este modelo desapareceu progressivamente da maioria das modalidades, permitindo aos atletas competir independentemente do seu passado profissional. Ainda hoje, o ghost runner continua a ser uma figura singular da história desportiva britânica. A sua paixão e a vontade fora do comum de escapar ao destino que lhe estava traçado marcaram o público, que continua a recordá-lo mais de 50 anos depois da sua morte, em 1975, com apenas 43 anos. John Tarrant sofria de uma doença grave no estômago. Mas, até ao fim, os seus amigos puderam testemunhar a sua coragem perante o cancro.
Mais artigos
Jean Bouin, pioneiro da corrida francesa
Jean Bouin, medalhado olímpico e pioneiro da corrida francesa, marcou uma época com desempenhos fora de série antes de morrer aos 25 anos.
qui., 10 de setembro de 2026
Haruki Murakami, um escritor em modo corredor de fundo
Haruki Murakami cruza corrida e escrita num livro simples e revelador sobre disciplina, resistência e perseverança.
qui., 10 de setembro de 2026
Os horizontes infinitos de Claude Cazes
Horizons infinis, de Claude Cazes, conta as aventuras do corredor que subiu o Nilo e atravessou a Europa para ajudar outras pessoas.
qua., 9 de setembro de 2026