Em menos de um ano, Russ Cook percorreu 16 200 km a correr, do extremo sul ao extremo norte do continente africano. Ao atravessar 16 países, o aventureiro britânico conhecido como “Hardest Geezer” enfrentou calor, exaustão e adversidade, levando os limites da resistência humana para outro patamar. Um feito fora de série que inscreveu o seu nome na história dos desafios extremos.
Há quem leve os limites do corpo humano mais longe e quem ponha à prova os da resistência mental. Russ Cook e a sua barba ruiva fizeram as duas coisas. Este aventureiro britânico de 27 anos entrou para a história ao tornar-se o primeiro homem a correr do sul ao norte de África, num feito colossal de 16 200 km cumprido em menos de um ano, durante o Project Africa. Recordamos uma odisseia concluída em abril e que ficará nos anais da ultra-resistência.
Uma aventura fora de série
Tudo começa a 22 de abril de 2023, quando Russ Cook parte do Cabo das Agulhas, na África do Sul com um objetivo insano: chegar ao Cabo Ângela, na Tunísia, usando apenas a força das pernas, a mais de 16 000 quilómetros de distância. O plano? Correr cerca de 60 quilómetros por dia, o equivalente a quase 380 maratonas (ou 19 milhões de passos, para os fanáticos das estatísticas), sem dar tréguas. A um ritmo de cerca de 60 quilómetros diários, o “Hardest Geezer” atravessa 16 países: África do Sul, Namíbia, Angola, República Democrática do Congo, Camarões, Nigéria, Níger, Argélia… territórios com desafios tão variados como o calor sufocante, as pistas de areia, as estradas intransitáveis e, acima de tudo, os riscos de segurança. Nada o trava.
Já conhecido pelos seus feitos extremos, incluindo um recorde mundial da maratona a puxar um carro, estabelecido em 9h56’ , o britânico partilha a sua aventura com milhares de seguidores nas redes sociais. A cada etapa, conta os encontros, as dificuldades, os momentos de dúvida e também a beleza de África, que vai descobrindo a cada passada.
Um desafio que vai muito além do físico
Correr através do continente africano não é apenas uma questão de resistência. O Forrest Gump britânico tem de lidar com fadiga extrema, lesões, problemas logísticos e incidentes diplomáticos. É que, em alguns países, este filho do West Sussex tem dificuldade em obter vistos e é obrigado a alterar constantemente o percurso. O Níger e a Argélia, marcados por tensões de segurança, são obstáculos de peso. Chega a ser detido brevemente por homens armados, antes de ser libertado. Longe de se deixar intimidar, o destemido aventureiro continua, apoiado por uma equipa logística e por milhares de fãs que acompanham os seus feitos nas redes sociais. Por várias vezes, pensa em desistir, mas a sua força mental fá-lo prolongar a jornada.
A 7 de abril de 2024, depois de quase um ano de esforço, 352 dias ao certo, chega ao seu destino: o Cabo Ângela. Cook torna-se então o primeiro homem a atravessar África a correr, do ponto mais a sul ao ponto mais a norte (e o terceiro a percorrer África, depois de Nicholas Bourne, em 1998, e Jesper Olsen, em 2008). «Sou uma pessoa perfeitamente normal. Por isso, se eu consigo fazê-lo, espero que as pessoas possam aplicar isso à sua própria vida, da forma que escolherem», explicou depois de concluir uma aventura africana sem precedentes.
O feito vai muito além do desafio desportivo: angariou centenas de milhares de euros para instituições de solidariedade, inspirou milhares de corredores e provou que a resistência humana pode ultrapassar limites inimagináveis. Russ Cook angariou cerca de 600 000 libras esterlinas (quase 700 000 euros). Embora não tenha alcançado o objetivo de um milhão de libras, o dinheiro foi ainda assim entregue à organização britânica Running Charity, para ajudar jovens sem-abrigo.
E agora?
Mal teve tempo para saborear o sucesso e Russ Cook já pensa no que vem a seguir. Longe de estar satisfeito, sonha com novos desafios, cada vez mais loucos. O próximo da lista: uma aventura de 3 000 quilómetros e 30 000 m de desnível acumulado pelas montanhas da Nova Zelândia, com início marcado para março e que deverá ser o seu último desafio.
Uma coisa é certa: para este apaixonado pela corrida, o impossível nunca parece ser um limite.
A primeira pessoa de sempre a correr toda a extensão de África. Missão cumprida🫡 pic.twitter.com/PZk5aDCDgH
— Russ Cook (@hardestgeezer) 7 de abril de 2024