Mau tempo para o relógio
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Mau tempo para o relógio

CP
Por Charles-Emmanuel Pean

Publicado em qua., 9 de setembro de 2026

Atualizado em qua., 9 de setembro de 2026

Na história recente da corrida, algumas provas ficaram ainda mais duras por causa das condições meteorológicas. Um pódio inusitado, sem pretensão de ser exaustivo, que inclui duas maratonas.

Maratona de Boston 2018

A Maratona de Boston é a maratona anual mais antiga do mundo! Nascida em 1897, um ano depois da Maratona de Atenas, a prova faz parte da famosa família das World Marathon Majors, que também reúne as maratonas de Berlim, Chicago, Londres, Nova York e Tóquio. Todos os anos, dezenas de milhares de corredores alinham à partida. Em 2018, foram um pouco menos… Naquele ano, chuvas torrenciais atingiram a cidade de Massachusetts, acompanhadas de ventos fortes. A prova aconteceu em 16 de abril, mas a temperatura mal passou de 0 °C… Nessas condições, muitos corredores, inclusive profissionais, decidiram não largar. Um atleta, porém, não parecia incomodado com o cenário: o japonês Yuki Kawauchi, corredor amador. Não tão amador assim: ele era conhecido por já ter disputado mais de 100 maratonas abaixo de 2h20! Um verdadeiro amador profissional, servidor público durante a semana e corredor nas horas vagas…

Naquele dia, enfrentando chuva e frio, ele acabou derrotando o grande favorito, o queniano Geoffrey Kirui. Kirui conduziu o pelotão até o quilômetro 40, antes de ver o japonês disparar rumo à vitória, em 2h15min54s! Um amador à frente do então campeão mundial, vencedor da prova no ano anterior. Inacreditável… Entre as mulheres, a americana Desiree Linden superou todas as favoritas com o tempo mais lento dos últimos 40 anos em Boston: 2h39min54s. No feminino, muitas profissionais também abandonaram logo nos primeiros quilômetros diante das condições de prova impraticáveis…

tempo na maratona© GR 5555 / sob licença Creative Commons

Ultra-Trail du Mont-Blanc 2010

Criada em 2003, a UTMB tornou-se, em apenas duas décadas, uma das provas de trail mais míticas do planeta. Três países atravessados, 166 quilômetros de percurso, 9.500 metros de desnível positivo… A dificuldade é parte do prestígio da prova. Mas, em 2010, os organizadores precisaram de uma dose extraordinária de coragem para interromper a corrida depois da largada… Voltamos à sexta-feira, 27 de agosto de 2010. Naquele dia, fortes tempestades de neve atingiram o Mont Blanc. Ainda assim, a largada foi dada no fim da tarde, depois de horas de incerteza e espera para os 2.300 corredores inscritos. Homens e mulheres que haviam passado meses se preparando para aquele encontro único… Mas, diante da intensidade do mau tempo, a prova foi interrompida às 21h15, pouco menos de três horas depois da largada e pouco antes de os corredores chegarem ao Col du Bonhomme, um trecho técnico da prova no maciço dos Vosges. “O boletim meteorológico anunciou chuvas fortes e intensas, que não devem diminuir antes do fim da manhã”, explicou a diretora de prova Catherine Poletti, abatida, mas consciente da responsabilidade.

Ela acrescentou: “Em seis quilômetros, as balizas foram arrancadas numa zona montanhosa particularmente problemática”. O receio de que os corredores se perdessem e sofressem quedas era grande demais. Depois que todos foram retirados, uma nova largada foi dada às 10h15 de sábado, em Courmayeur, para os 1.253 corredores que ainda estavam presentes, num percurso alterado para evitar a zona de risco. A maratona logística dos organizadores foi bruscamente interrompida pelo tempo… Mas, diante dos acontecimentos recentes que atingiram o trail, só podemos aplaudir a coragem demonstrada pelos organizadores naquele dia.


Maratona de Nova York 1994

6 de novembro de 1994. Naquele dia, o tempo e a maratona também não combinaram. Ventos fortes e temperaturas baixas castigavam a cidade de Nova York, que se preparava para receber seu maior evento anual: a 25ª edição da Maratona de Nova York. O público americano enfrentou a chuva e as rajadas para não perder o espetáculo. Tempo péssimo? Não importa, a maratona é sagrada! As ruas da Big Apple estavam lotadas e ainda veriam uma chegada memorável. Depois de errar uma curva a poucos quilômetros da chegada, no Central Park, o mexicano número 10, German Silva, venceu a edição de 1994 em 2h11min21s, dois segundos à frente do compatriota Benjamin Paredes, depois de ultrapassá-lo nos metros finais da prova (veja o vídeo abaixo)! O mexicano venceria também a edição seguinte, melhorando seu tempo em 21 segundos. A lenda de “Wrong Way Silva” estava criada. Entre as mulheres, a queniana Tegla Loroupe cruzou a linha na frente, tornando-se a primeira atleta africana a vencer a Maratona de Nova York! Ela também venceria a edição seguinte… Em 2016, Tegla Loroupe fundou a Athlete Refugee Team (ART), formada por atletas que sofreram com conflitos violentos e injustos.

Sua mais bela vitória contra o vento.

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