A evolução dos abastecimentos na maratona: do vinho aos géis energéticos
Dos primeiros maratonas modernos, no início do século XX, às competições de 2026, os abastecimentos mudaram profundamente. Do minimalismo extremo à chegada dos géis energéticos e das tecnologias mais recentes, as mesas de apoio acompanharam uma transformação radical ao longo das décadas.
Pão de especiarias, bananas, bebidas e géis energéticos. Hoje, os organizadores oferecem uma grande variedade de alimentos e líquidos para ajudar os corredores a completar a distância. Atletas de todos os níveis apostam na ingestão de carboidratos ao longo da prova. A estratégia nutricional ocupa agora um lugar central. Mas nem sempre foi assim.
A época em que beber durante uma maratona era visto com desconfiança
Durante décadas, foi amplamente difundida a ideia de que não se devia beber nem comer durante o esforço, inclusive em uma maratona. A lógica dominante era simples: hidratar-se significava ficar mais pesado, correr o risco de ter cãibras e, portanto, perder rendimento. Beber causava receio e era visto como ineficaz, quando não contraproducente.
Já na primeira maratona olímpica da era moderna, disputada em Atenas em 1896, os corredores não tinham abastecimento. Os espectadores lhes ofereciam diferentes bebidas ao longo do percurso, entre elas vinho, então associado à virilidade e à força.
Alguns anos depois, os Jogos Olímpicos de Verão de 1904 deram um exemplo extremo dessa mentalidade. Em condições infernais, com temperaturas em torno de 32 graus, havia apenas um ponto principal de abastecimento. Quase não havia água. Era uma decisão defendida pelo diretor dos Jogos, James Edward Sullivan, que queria testar os limites do corpo e analisar a desidratação durante uma prova física. Dos 32 atletas que largaram, apenas 14 conseguiram completar a corrida.
Vários corredores foram parar no pronto-socorro, alguns à beira da morte. O vencedor, o americano Thomas Hick, conquistou o título em 3h28’53, o tempo mais alto da história olímpica para um vencedor. Ele também competiu dopado com estricnina, em outras palavras, veneno de rato combinado com brandy. A competição, apelidada de «a mais estranha da história olímpica», quase provocou o desaparecimento da prova dos Jogos Olímpicos.
Ideias que demoraram a desaparecer
Apesar de várias provas semelhantes à de 1904, abastecer-se continuou por muito tempo sendo considerado pouco eficaz. O campeão olímpico da maratona Alain Mimoun venceu a distância em 1956 sem uma estratégia de hidratação propriamente dita, embora a prova tenha sido disputada em Melbourne, durante o verão australiano. Os abastecimentos eram rudimentares, às vezes com água e açúcar, e muito espaçados. Em alguns casos, havia apenas um ponto ao longo de toda a maratona.
Essa convicção persistiu até a década de 1970. Emmanuel Lamarre, fundador do laboratório francês de nutrição Pyrene, explicou em uma pop-up store da Saucony que, ainda nos anos 2000, a alimentação durante o esforço seguia bastante limitada. «Os atletas não comiam, ou comiam muito pouco, durante o esforço, recorrendo a preparações de gerações anteriores, como Gatorade nos Estados Unidos e Isostar na França», explica o especialista. Na época, quebrar no quilômetro 30 era considerado inevitável.
O controverso atleta e depois treinador Alberto Salazar, suspenso por doping, venceu a Maratona de Boston em 1982, com 2h08’52, sem beber. O corredor, que terminou várias provas no hospital, chegou a declarar: «Se você quiser alcançar um objetivo ambicioso, terá de correr riscos». Uma filosofia que ele aplicava a si próprio e que inspirou muitos maratonistas daquela geração, com todos os riscos que isso representava para a saúde.
Do vinho ao leite
Na maratona dos Jogos de Paris de 1924, os abastecimentos se limitavam a água, leite e, mais surpreendentemente, vinho, às vezes acompanhado de outras bebidas alcoólicas. Na França, o vinho estava por toda parte, associado a um estilo de vida saudável e visto como estimulante. Manuais de treinamento chegavam a recomendar uma taça de vinho tinto em todas as refeições. Oferecia-se muito pouca água, enquanto essas bebidas inusitadas eram distribuídas em pequenas quantidades, às vezes misturadas ou diluídas.
O vinho era considerado um fortificante, quase um remédio contra o cansaço, enquanto a água despertava medo e era vista como perigosa. A presença do álcool refletia a sociedade francesa da época e, naturalmente, também aparecia no esporte. A crença geral era de que a bebida aquecia o corpo, reduzia a fadiga e proporcionava um impulso extra. Os efeitos da desidratação provocada pelo álcool, assim como o impacto negativo sobre a coordenação e a resistência, eram completamente ignorados.
E isso não acontecia apenas na França: o álcool era frequentemente incorporado às práticas de endurance. Cerveja, bebidas leves ou brandy nos Estados Unidos podiam aparecer nos pontos de abastecimento, muito longe dos padrões atuais, que buscam otimizar carboidratos e hidratação.
De 2010 a 2026, mudanças importantes
Hoje sabemos que a desidratação é perigosa e prejudica o desempenho. O álcool, evidentemente, faz mal, ainda mais durante o esforço.
A importância de uma hidratação adequada, assim como o papel dos carboidratos e dos eletrólitos, já não precisa ser demonstrada. Pontos de abastecimento mais completos e regulares, instalados aproximadamente a cada cinco quilômetros, tornaram-se comuns na década de 1990. Grandes maratonas, como as de Nova York e de Londres contribuíram muito para estruturar esse aspecto, que se tornou central.
Emmanuel Lamarre explica que a década de 2010 foi marcada pela popularização do gel energético. «Ele se tornou o padrão da nutrição esportiva, mas com tecnologias bastante básicas, baseadas em açúcares rápidos que proporcionavam um impulso imediato», detalha o fundador.
Segundo ele, a verdadeira virada aconteceu em 2015, com avanços importantes no conhecimento sobre nutrição. Hoje, as marcas de nutrição esportiva tomaram conta do mercado. Algumas oferecem produtos de dupla oxidação, que contêm glicose e frutose.
A capacidade fisiológica era estabelecida em torno de 60 gramas de carboidratos por hora. Sabíamos que a glicose, um açúcar rápido, era oxidada pelo intestino. Foi nesse período que a dupla oxidação ganhou destaque. Descobrimos que, ao incluir frutose, um açúcar complexo oxidado pelo fígado, e ao mobilizar vários órgãos, era possível elevar o consumo para 90 gramas de carboidratos por hora.
Essa evolução ajudou a ampliar os limites do desempenho em provas de endurance, a ponto de contribuir para a quebra da barreira das duas horas na maratona em 2026. Corredores de todos os níveis se interessam cada vez mais por esse componente do treinamento, que se tornou inseparável do desempenho.
Da rejeição a qualquer tipo de abastecimento à presença de vinho em algumas provas nos anos 1920, passando pelos géis de nova geração, a estratégia nutricional se transformou profundamente em um século. Hoje, com performances cada vez mais impressionantes e uma prática cada vez mais estruturada entre os amadores, hidratar-se e alimentar-se ao longo da distância rainha tornou-se um processo precisamente calibrado, baseado em dados científicos sólidos, e não apenas em tentativa e erro.
Dos primeiros maratonas modernos, no início do século XX, às competições de 2026, os abastecimentos mudaram profundamente. Do minimalismo extremo à chegada dos géis energéticos e das tecnologias mais recentes, as mesas de apoio acompanharam uma transformação radical ao longo das décadas.
Pão de especiarias, bananas, bebidas e géis energéticos. Hoje, os organizadores oferecem uma grande variedade de alimentos e líquidos para ajudar os corredores a completar a distância. Atletas de todos os níveis apostam na ingestão de carboidratos ao longo da prova. A estratégia nutricional ocupa agora um lugar central. Mas nem sempre foi assim.
A época em que beber durante uma maratona era visto com desconfiança
Durante décadas, foi amplamente difundida a ideia de que não se devia beber nem comer durante o esforço, inclusive em uma maratona. A lógica dominante era simples: hidratar-se significava ficar mais pesado, correr o risco de ter cãibras e, portanto, perder rendimento. Beber causava receio e era visto como ineficaz, quando não contraproducente.
Já na primeira maratona olímpica da era moderna, disputada em Atenas em 1896, os corredores não tinham abastecimento. Os espectadores lhes ofereciam diferentes bebidas ao longo do percurso, entre elas vinho, então associado à virilidade e à força.
Alguns anos depois, os Jogos Olímpicos de Verão de 1904 deram um exemplo extremo dessa mentalidade. Em condições infernais, com temperaturas em torno de 32 graus, havia apenas um ponto principal de abastecimento. Quase não havia água. Era uma decisão defendida pelo diretor dos Jogos, James Edward Sullivan, que queria testar os limites do corpo e analisar a desidratação durante uma prova física. Dos 32 atletas que largaram, apenas 14 conseguiram completar a corrida.
Vários corredores foram parar no pronto-socorro, alguns à beira da morte. O vencedor, o americano Thomas Hick, conquistou o título em 3h28’53, o tempo mais alto da história olímpica para um vencedor. Ele também competiu dopado com estricnina, em outras palavras, veneno de rato combinado com brandy. A competição, apelidada de «a mais estranha da história olímpica», quase provocou o desaparecimento da prova dos Jogos Olímpicos.
Ideias que demoraram a desaparecer
Apesar de várias provas semelhantes à de 1904, abastecer-se continuou por muito tempo sendo considerado pouco eficaz. O campeão olímpico da maratona Alain Mimoun venceu a distância em 1956 sem uma estratégia de hidratação propriamente dita, embora a prova tenha sido disputada em Melbourne, durante o verão australiano. Os abastecimentos eram rudimentares, às vezes com água e açúcar, e muito espaçados. Em alguns casos, havia apenas um ponto ao longo de toda a maratona.
Essa convicção persistiu até a década de 1970. Emmanuel Lamarre, fundador do laboratório francês de nutrição Pyrene, explicou em uma pop-up store da Saucony que, ainda nos anos 2000, a alimentação durante o esforço seguia bastante limitada. «Os atletas não comiam, ou comiam muito pouco, durante o esforço, recorrendo a preparações de gerações anteriores, como Gatorade nos Estados Unidos e Isostar na França», explica o especialista. Na época, quebrar no quilômetro 30 era considerado inevitável.
O controverso atleta e depois treinador Alberto Salazar, suspenso por doping, venceu a Maratona de Boston em 1982, com 2h08’52, sem beber. O corredor, que terminou várias provas no hospital, chegou a declarar: «Se você quiser alcançar um objetivo ambicioso, terá de correr riscos». Uma filosofia que ele aplicava a si próprio e que inspirou muitos maratonistas daquela geração, com todos os riscos que isso representava para a saúde.
Do vinho ao leite
Na maratona dos Jogos de Paris de 1924, os abastecimentos se limitavam a água, leite e, mais surpreendentemente, vinho, às vezes acompanhado de outras bebidas alcoólicas. Na França, o vinho estava por toda parte, associado a um estilo de vida saudável e visto como estimulante. Manuais de treinamento chegavam a recomendar uma taça de vinho tinto em todas as refeições. Oferecia-se muito pouca água, enquanto essas bebidas inusitadas eram distribuídas em pequenas quantidades, às vezes misturadas ou diluídas.
O vinho era considerado um fortificante, quase um remédio contra o cansaço, enquanto a água despertava medo e era vista como perigosa. A presença do álcool refletia a sociedade francesa da época e, naturalmente, também aparecia no esporte. A crença geral era de que a bebida aquecia o corpo, reduzia a fadiga e proporcionava um impulso extra. Os efeitos da desidratação provocada pelo álcool, assim como o impacto negativo sobre a coordenação e a resistência, eram completamente ignorados.
E isso não acontecia apenas na França: o álcool era frequentemente incorporado às práticas de endurance. Cerveja, bebidas leves ou brandy nos Estados Unidos podiam aparecer nos pontos de abastecimento, muito longe dos padrões atuais, que buscam otimizar carboidratos e hidratação.
De 2010 a 2026, mudanças importantes
Hoje sabemos que a desidratação é perigosa e prejudica o desempenho. O álcool, evidentemente, faz mal, ainda mais durante o esforço.
A importância de uma hidratação adequada, assim como o papel dos carboidratos e dos eletrólitos, já não precisa ser demonstrada. Pontos de abastecimento mais completos e regulares, instalados aproximadamente a cada cinco quilômetros, tornaram-se comuns na década de 1990. Grandes maratonas, como as de Nova York e de Londres contribuíram muito para estruturar esse aspecto, que se tornou central.
Emmanuel Lamarre explica que a década de 2010 foi marcada pela popularização do gel energético. «Ele se tornou o padrão da nutrição esportiva, mas com tecnologias bastante básicas, baseadas em açúcares rápidos que proporcionavam um impulso imediato», detalha o fundador.
Segundo ele, a verdadeira virada aconteceu em 2015, com avanços importantes no conhecimento sobre nutrição. Hoje, as marcas de nutrição esportiva tomaram conta do mercado. Algumas oferecem produtos de dupla oxidação, que contêm glicose e frutose.
A capacidade fisiológica era estabelecida em torno de 60 gramas de carboidratos por hora. Sabíamos que a glicose, um açúcar rápido, era oxidada pelo intestino. Foi nesse período que a dupla oxidação ganhou destaque. Descobrimos que, ao incluir frutose, um açúcar complexo oxidado pelo fígado, e ao mobilizar vários órgãos, era possível elevar o consumo para 90 gramas de carboidratos por hora.
Essa evolução ajudou a ampliar os limites do desempenho em provas de endurance, a ponto de contribuir para a quebra da barreira das duas horas na maratona em 2026. Corredores de todos os níveis se interessam cada vez mais por esse componente do treinamento, que se tornou inseparável do desempenho.
Da rejeição a qualquer tipo de abastecimento à presença de vinho em algumas provas nos anos 1920, passando pelos géis de nova geração, a estratégia nutricional se transformou profundamente em um século. Hoje, com performances cada vez mais impressionantes e uma prática cada vez mais estruturada entre os amadores, hidratar-se e alimentar-se ao longo da distância rainha tornou-se um processo precisamente calibrado, baseado em dados científicos sólidos, e não apenas em tentativa e erro.