Christelle Sturtz: «Serei samurai para sempre»
Publicado em qua., 9 de setembro de 2026
Atualizado em qua., 9 de setembro de 2026
Antiga atleta de karatê, Christelle Sturtz apaixonou-se nos últimos anos pelo asfalto e pelos trilhos. Determinada e apaixonada pela vida, tem no gosto pelo esforço e na partilha valores profundamente enraizados. Desde 2012, trabalha no desenvolvimento da associação ELA (Associação Europeia contra as Leucodistrofias), onde se dedica a dar sem esperar nada em troca.
Antiga vencedora da Taça do Mundo de karatê de combate
Nada fazia prever que esta alsaciana, hoje com 45 anos, viesse a apaixonar-se pelo karatê. Em criança, Christelle Sturtz era irrequieta e muito ativa. «Quando era pequena, chamavam-me Mowgli, estava sempre lá fora, no meio da natureza ou em cima das árvores». Nessa altura, os pais levaram-na ao clube em frente à casa da família, convencidos de que aquela arte marcial ajudaria a canalizar a energia da filha. A modalidade acabou por revelar todo o seu potencial: em 2010, sagrou-se vencedora da prestigiada Taça do Mundo de karatê.
Porquê a mudança para a corrida?
A corrida não surgiu de repente na vida de Christelle Sturtz. Em criança, via o pai treinar, correr e participar em provas. «Quando era miúda, acompanhava-o quando ele ia correr». Além de ver as pessoas à sua volta a correr e a treinar, também calçava ocasionalmente as sapatilhas como parte da sua preparação geral. A corrida entrou verdadeiramente na vida de Christelle Sturtz aos 39 anos, em 2017. Quando a karateca terminou a carreira, continuava a querer praticar desporto, com uma necessidade real de liberdade e evasão. Nessa altura, correr surgiu como uma escolha óbvia. «Sempre gostei de estar ao ar livre, perto dos elementos e da natureza». A recém-chegada à corrida depressa se deixou conquistar pelos treinos e pela vontade de participar em competições.
Depois de várias provas, tanto em estrada como em trilhos, é nas distâncias longas que Christelle Sturtz se sente melhor. «Tenho um carinho especial pela distância da maratona, sem dúvida». Para ela, o equilíbrio ideal passa por combinar estrada e trail ao longo do ano. «Gosto de fazer duas maratonas por ano, uma no início, outra no fim, e trail pelo meio. É impossível escolher entre o asfalto e os trilhos, adoro a complementaridade dos dois». No trail, é o ultra que atrai a antiga habitual dos dōjōs. «Gosto das distâncias longas, sobretudo a partir dos 80 quilómetros, mas ainda estou no início de tudo isto.»
O que resta hoje do karatê?
Apesar de já não praticar karatê, Christelle Sturtz continua a tê-lo presente na sua vida. «O karatê é a minha força de carácter, serei samurai para sempre». Com formação estatal de treinadora de karatê e defesa pessoal, dá aulas de karatê a crianças e adolescentes algumas horas por semana num clube da Alsácia. Na entrevista, reconhece que o karatê de então não era exatamente igual à prática atual. A modalidade evoluiu, e para melhor. «Naquela época era mais duro. Tive costelas fissuradas, uma fissura no esterno, uma fratura no cotovelo... Mesmo assim, ia combater. Hoje está tudo muito mais enquadrado». Foi também assim que Christelle Sturtz se construiu, aprendeu e se tornou a mulher que é hoje. «O karatê ensinou-me imenso. Fez de mim aquilo que sou hoje.»
Que resultados tem na corrida?
Apesar de o prazer ser a prioridade desta corredora, a procura por desempenho também está naturalmente presente. Com um recorde pessoal de 3h09 na maratona de Sevilha, em 2023, o grande objetivo é aproximar-se passo a passo da mítica barreira das três horas. «Sei que é uma fasquia muito alta, mas quero acreditar. Aproximar-me das três horas é um sonho». Esta atleta determinada e assídua é treinada desde 2019 por Julien Lyon, depois de se conhecerem no Quénia. Christelle Sturtz aplica na corrida a mesma disciplina que já tinha no karatê, e não são raras as semanas acima dos 100 quilómetros... «Gosto de treinar, gosto de correr. Adoro a preparação para a maratona, é exigente, mas quase meditativa. Estou focada no cronómetro. É como se estivesse dentro de uma bolha».
Qual será o próximo objetivo?
Depois de Sevilha em 2020 (3h22), em 2023 (recorde de 3h09) e em 2024 (3h13), como não alinhar em 2025? Christelle Sturtz estará, por isso, à partida da Maratona de Sevilha em fevereiro, com o objetivo de melhorar a sua marca na distância-rainha. Apesar dessa ambição, não esquece tudo o que pode acontecer ao longo de 42 quilómetros. «Quero melhorar o meu recorde pessoal, mas podem acontecer tantas coisas... Mantenho os pés assentes na terra, veremos». A primeira maratona de 2025 está decidida. Falta saber o que prepara Christelle Sturtz para o resto da época, entre estrada e trail...
Uma vida dedicada aos outros
Para lá da vida desportiva, Christelle Sturtz envolve-se em causas que lhe são importantes, também através do seu trabalho, ao qual se dedica a 100%. Atualmente, é responsável pelo desenvolvimento da associação ELA, onde antes era madrinha desportiva, quando integrava a seleção francesa de karatê. Fiel à ELA há mais de 24 anos, considera que esta experiência lhe permite perceber, no dia a dia, que a vida acaba sempre por nos alcançar e que as prioridades raramente estão onde pensamos. «O meu trabalho faz-me perceber que a vida é cristalina.»
Em 2024, Christelle Sturtz também se envolveu com Julien Lyon e a equipa Milimani Runners, no Quénia, num projeto de trail em algumas provas do circuito UTMB.