Os corredores são conhecidos, às vezes, por seus rituais e superstições, mais ou menos acentuados. Muitos apaixonados adotam rotinas únicas e milimetricamente planejadas quando a competição se aproxima. Alguns se sentem mais seguros vestindo o short de sua melhor atuação. Outros apostam em uma preparação estética precisa, enquanto há quem prefira cultivar um estado de espírito voltado ao desafio e à superação. Seja para ganhar confiança, por hábito, para se sentir pronto ou simplesmente para fazer tudo bem feito, os atletas não economizam ideias na preparação para o duelo.
Para Louis Michel (Clermont Auvergne Athlétisme), os rituais nem sempre foram algo natural. Um ano em branco depois de trocar de clube o levou a “ser mais rigoroso e ouvir o treinador.” O estalo veio em 2023, depois de anos difíceis, quando o campeão francês júnior de 2022 nos 10.000 m conseguiu uma grande atuação nos 5 km. “Anotei tudo o que tinha feito durante a semana e na véspera daquela prova. Minha rotina nasceu daí, embora tenha evoluído desde então”, conta o meio-fundista.
“ Não tenho nada a me recriminar quando sigo meus hábitos e o resultado não vem. Se faço uma prova ruim, é mais provável que tenha treinado mal nas semanas anteriores ou corrido mal naquele dia. Incorporar uma rotina ajuda a não ser negativo nem ficar ansioso demais, porque sinto muito estresse nos grandes eventos. Na minha cabeça, antes ou durante a prova, sei tudo o que preciso fazer. Está gravado em mim, e isso tranquiliza.
O roteiro começa com uma corrida leve na véspera, de duração variável, acompanhada de exercícios técnicos e acelerações conforme a importância do evento. Uma repetição 24 horas antes da hora decisiva.
Nos dias que antecedem a competição, Louis Michel se concentra no objetivo. Alguns de seus rituais vêm de seu primeiro treinador, Julien Chastang. O banho escocês é um exemplo perfeito, alternando água quente e fria, assim como colocar os “pés na parede” antes de dormir.
Meticuloso, ele se preocupa com os detalhes. Na véspera, um alarme toca a cada quinze minutos para lembrá-lo de beber água. “Uma grande mudança” que o ajuda a se sentir pronto no dia da prova. O especialista nos 10 km completa o protocolo com uma massagem com arnica e veste cuidadosamente as meias de compressão: “quatro horas pela manhã, uma hora sem elas, quatro horas à tarde.” O atleta reforça a motivação assistindo a vídeos de corredores. Às 20h30, a tela do celular se apaga. Às 22h, ele está na cama. O silêncio cai, pesado como antes do tiro de largada. Duas horas depois, no escuro, Louis Michel se entrega ao sono, já voltado para a batalha do dia seguinte. Pela manhã, banho quente e meias de compressão sob o agasalho. “Não sei se tudo isso realmente deixa as pernas mais leves, mas, de qualquer forma, me dá confiança.”
Ainda uma promessa do atletismo, o atleta tem um recorde de 29’03” nos 10 km de rua (2025), a 16ª melhor marca francesa sub-23 de todos os tempos. Natural de Puy-en-Velay, ele adapta a rotina à importância do evento. Em uma etapa simples de preparação, às vezes acrescenta ou testa coisas novas. “Se funcionar, incorporo à minha rotina de verdade.” Hoje, nada de superstições exageradas com a roupa. “No começo, eu precisava usar o mesmo short e as mesmas meias. Agora isso já não importa, embora goste de vestir minha roupa preferida no dia mais importante do ano: o da Prom’Classic.”
Preparar-se para uma prova como quem se prepara para uma festa
Enquanto alguns repetem gestos rigorosos, outros preferem não se prender a uma rotina. Onde Louis Michel aposta na disciplina, Louisa Esmouni (Montpellier Athletic Mediterranée Métropole) prefere a flexibilidade. Convocada duas vezes para a seleção francesa, nos Campeonatos Europeus sub-23 dos 1.500 m e no Campeonato Europeu de cross-country sub-23, a atleta de Montpellier já conhece as grandes competições. “Não tenho um ritual único antes das provas, embora faça algumas coisas com frequência para me sentir pronta. Não quero pensar que tudo precisa acontecer da mesma forma todas as vezes para dar certo.”
Dona de uma marca de 4’12”54 nos 1.500 m (2025), a atleta repete as mesmas semanas de treinamento na preparação para a competição, sempre com o mesmo dia de descanso e uma última corrida leve parecida antes de cada meeting. Na véspera ou no dia da prova, a frequentadora assídua dos pódios nacionais gosta sobretudo de escrever seus pensamentos em um caderno, para se concentrar e se projetar na disputa.
Acima de tudo, seu ritual mais precioso é estético. Nos dias de batalha, antes de pisar na pista vermelha ou na lama implacável, Louisa Esmouni cuida da aparência. “Gosto de me sentir bonita para o evento”, sorri a atleta treinada pelo pai, Rachid Esmouni. “É importante para mim reservar um tempo para me preparar.” Fazer tranças no cabelo é indispensável. “Nunca é o mesmo penteado. Às vezes, duas tranças; às vezes, um coque trançado. Gosto de variar.” Uma produção que funciona como armadura de confiança.
A mentalidade do competidor apaixonado
Metódico, mas não exatamente rígido, Samuel Legat (Fac Andrézieux) cuida de cada etapa da preparação. Fazer a última corrida leve exatamente 24 horas antes da prova é uma delas. “Às vezes não é possível, mas não faço disso um problema. Por exemplo, quando viajo com meu clube para o Campeonato Francês de cross”, relativiza o especialista nos 3.000 m com obstáculos. Na preparação final, o corredor também gosta das “sessões que dão confiança”: intervalados no ritmo-alvo, feitos em distâncias mais curtas.
As superstições costumam se multiplicar entre os corredores. A promessa do Fac Andrézieux não é exceção. Duas camisetas dividem espaço em seu armário: uma com o antigo logotipo do clube, outra com o novo. “Eu tinha usado a primeira quando me machuquei e não tive um bom desempenho. Desde então, não a uso mais, vai que a culpa é da camiseta”, brinca o atleta treinado por Thibaud Naël. “Também há shorts que reservo para as provas. Volto a usar aqueles que deram certo nas vezes anteriores. Fiz uma ótima temporada em 2025, com 8’43”66 nos 3.000 m com obstáculos, sempre usando o mesmo short da adidas.”
Para reduzir o nervosismo, o meio-fundista se apoia na organização. “Fico melhor quando preparo tudo com antecedência: camiseta, número de peito, tênis...” Sua alimentação também é simples: aposta em uma dieta rica em carboidratos, sem deixar de se hidratar bem.
Mais do que seus hábitos, foi sua mentalidade que mudou. Ansioso durante muito tempo, Samuel Legat encontrou outra forma de enxergar a competição, sobretudo quando há algo importante em jogo. As grandes provas o ajudaram a relativizar. A serenidade virou uma arma.
Percebi a sorte que tinha de largar ao lado de atletas de alto nível. Penso que é preciso aproveitar o máximo, porque não sabemos se teremos outra oportunidade de viver momentos assim. Lembro de todas as vezes em que estive lesionado. Só estar na linha de largada já é incrível, e saboreio isso sempre. Antes eu ficava dominado pela situação; agora, essa visão me permite superar meus limites e manter a serenidade.
Preparação minuciosa e visualização
Ser organizado e disciplinado é a chave para evitar a tensão. Três vezes convocada para a seleção francesa, em campeonatos europeus de cross e pista nos 5.000 m, Camille Place (EA St Quentin en Yvelines) aposta em uma disciplina de ferro. Alimentação específica, preparação minuciosa: para a múltipla campeã francesa, tudo fica pronto com antecedência. Bolsa organizada, roupa de aquecimento e uniforme da prova cuidadosamente dobrados, sapatilhas de pino conferidas. “Gosto de deixar tudo no lugar. Busco dormir pelo menos oito horas, embora o estresse antes de uma competição nem sempre permita”, conta a atleta.
Antes de uma competição, seu despertador toca pelo menos cinco horas antes da largada para que se sinta alerta, mesmo que isso signifique levantar ao amanhecer. “Faço uma corrida leve de 15 minutos para despertar a musculatura ou então caminho enquanto penso em como a prova vai se desenrolar. Como cinco horas antes da largada e volto a comer um pouquinho duas ou três horas antes.”
Seguindo essa lógica, a corredora de cross chega cedo ao local do meeting. Natural de Oyonnax, ela observa e absorve a atmosfera. “Gosto de sentir o lugar, o ambiente, dar uma volta, reconhecer o espaço. Depois, sento na arquibancada e visualizo a batalha.” A atleta da pista, dona de uma marca de 15’33” nos 5.000 m (2025), fecha os olhos e se imagina vencendo. Uma técnica de preparação mental indispensável para ela, em meio à agitação do estádio.
Seu aquecimento começa “uma hora cheia” antes do momento decisivo, para ficar “tranquila.” Como muitos atletas, a pupila de Cédric Beaurain também tem seus amuletos da sorte.
Embora minha roupa mude conforme o período da temporada, há elementos que me acompanham sempre, como o elástico de cabelo e um sutiã esportivo específico. Tenho dois ou três pares de brincos que uso nos dias importantes. Durante a temporada de cross, se uma peça específica me dá sorte uma vez, há grandes chances de eu usá-la novamente na prova seguinte.
Rituais precisos ou liberdade assumida, cada corredor encontra seu jeito de lidar com a pressão. Mas, na linha de largada, supersticioso ou não, uma única verdade importa: correr, superar-se e transformar em resultado as longas horas de treino, ao fim de uma batalha intensa.
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