Ser gémeo: uma vantagem na corrida?
Da prática desportiva partilhada na infância à decisão de correr juntos na idade adulta, vai um passo para gémeos e gémeas nascidos sob a mesma estrela, aquela que pode torná-los prodígios da modalidade ou não. Depois de perceberem as características de cada um, resta treinar: juntos, afastando-se por vezes, mas sempre com o mesmo prazer de se reencontrarem na linha de partida e correrem lado a lado.
Não, não está a ver a dobrar: quando Michaël Gras corta a meta, poucos minutos depois é o irmão, Damien Gras que surge na reta final. E, se por acaso trocassem de posição na classificação, seria muito difícil dar por isso. Ser gémeos e atletas de alto nível faz parte do quotidiano dos irmãos Gras, ambos com 33 anos. Mas não são os únicos a viver a paixão em dupla: Amélie e Carole Sinquin, de 32 anos, partilham a mesma paixão pela modalidade. Quando uma brilha na maratona, a outra destaca-se nos 5 km. Um olhar sobre um desporto em que ser gémeo pode fazer a diferença... ou não.
Treinar a dois para evoluir, motivar-se e competir: uma verdadeira vantagem
Funcionar em dupla, seja como um “casal”, sentindo-se diferente mas partilhando uma dinâmica comum, ou como um “duplo”, num reflexo em que fazem tudo da mesma forma, traz inúmeras vantagens, sobretudo numa modalidade em que a morfologia tem um papel determinante no rendimento. Desde muito novas, as irmãs Sinquin encadearam atividades desportivas, sempre lado a lado. «Éramos um pouco polivalentes. A cada trimestre, mudávamos de atividade», recorda Amélie, a mais velha das duas. Rapidamente, o atletismo impôs-se como uma escolha natural. «Começámos por participar em pequenas corridas na nossa aldeia. Numa delas, o nosso pai viu-nos entrar no estádio e achou que tínhamos uma passada muito bonita, porque ele próprio também corria um pouco». Aos 10 anos, entraram no clube de Pontivy, antes de seguirem para o liceu de Cesson-Sévigné, num programa de desporto de alto rendimento, onde uma se dedicou sobretudo aos 1500 m e a outra aos 800 m. «A minha irmã fazia corta-mato curto e eu preferia o longo. Ela não gosta muito quando há subidas ou muito desnível.»
A história é semelhante à dos irmãos Gras, também envolvidos no desporto desde muito cedo, sem nunca se separarem. «Sempre fizemos mais ou menos as mesmas coisas. Os nossos pais inscreveram-nos no futebol por volta dos 7 anos», recorda Michaël. Descobertos pelo treinador de atletismo do Pessac AC, cujo filho jogava na mesma equipa, destacaram-se nas provas de corta-mato do escalão de benjamins. «Ele viu que corríamos bem na pré-época e, sobretudo, que gostávamos daquilo. Então pôs-nos a experimentar o corta-mato e, no fim, ganhávamos com alguma facilidade, sem treinar muito». Ainda assim, distinguiram-se por preferências diferentes: um mais vocacionado para os 800-1500 m, o outro para os 3000 m. «Mas era mesmo uma questão de pormenor...», faz questão de esclarecer Michaël.
Partilhar os treinos revelou-se benéfico para uns e outros. «Treinar com alguém do mesmo nível resultava bem. No dia a dia, não era fácil encontrar parceiros que se ajustassem a nós. E se um de nós não tinha vontade de ir correr, por estar cansado ou com uma pequena dor, o outro dava-lhe o empurrão necessário», explica Michaël. Amélie confirma, lembrando os fins de semana em que regressavam a casa dos pais: «Estávamos num colégio interno e, quando voltávamos, sabíamos que não íamos fazer os treinos sozinhas. Tínhamos logo a nossa dupla, o que tornava mais fácil treinar e motivarmo-nos. Era uma força». Uma força confirmada por Michaël: «Ser gémeos permitiu-nos ajudar-nos mutuamente no percurso profissional e desportivo. Em todas as nossas escolhas de vida, o desporto foi muitas vezes uma prioridade. Lembro-me da meia maratona de Thule, em que corremos lado a lado e cortámos a meta juntos num sprint, porque tínhamos exatamente o mesmo nível.»
Uma competição que os faz subir de nível, mas não pode tornar-se tóxica
Por vezes, porém, era o espírito competitivo que prevalecia. «É difícil cortar a meta de mãos dadas. Queremos desempatar. Nos campeonatos inter-regionais de corta-mato, em Carcassonne, tínhamos uma grande vantagem sobre a concorrência, mas isso não impediu que terminássemos ao sprint. Somos, antes de mais, competitivos um com o outro», explica Michaël. Havia rivalidade, mas era saudável». Mesmo nos treinos, a vontade de não ficar atrás do outro levava-os a superar-se. Positiva para evoluir, sem dúvida. «Quando eu estava um pouco à frente no treino, ele queria fazer os mesmos tempos que eu. Esforçava-se para lá chegar e isso puxava-nos aos dois para cima». Mas negativa quando entram em jogo as lesões inevitáveis e o corpo chega aos seus limites. «O reverso da medalha é termos tendência para nos compararmos demasiado. O meu irmão lesionou-se muitas vezes por causa disso. Aguentava, tinha de se esforçar mais para me acompanhar nos treinos e para conseguir manter os mesmos objetivos que eu. Corria sempre um pouco acima das suas capacidades e, por isso, acabava frequentemente lesionado.»
Naquela época, as irmãs Sinquin passavam o tempo coladas uma à outra, ao ponto de por vezes se compararem, o que provocava alguma frustração em Carole. «Havia sempre uma pequena guerra nos corta-matos. Às vezes ficava frustrada, porque o meu pai tinha orgulho nas duas. Mas dizia a mim própria que talvez tivesse mais orgulho nela, porque tinha ficado melhor classificada», confessa, antes de reconhecer a sorte de partilhar aqueles momentos com a irmã. «Mas, inconscientemente, acho que isso ajuda, porque correr as duas dá motivação.»
Afastar-se para preservar uma competição saudável
Ao longo da vida, tanto no plano profissional como no desportivo, estes pares de gémeos e gémeas vão evoluir juntos e depois separadamente. Vão reencontrar-se e voltar a afastar-se. Ganhar autonomia em relação ao outro pode ser a chave, como Damien Gras descobriu numa determinada fase. Michaël recorda essa separação temporária: «Ele tentou mudar de treinador durante um ou dois anos, para ter treinos diferentes dos meus. Tinha perdido muito tempo por causa das lesões e, por isso, não podia retomar o mesmo treino. Bem, podia, mas iria querer comparar-se demasiado. No fim, a mudança não correu propriamente bem, porque a nossa força está em treinar a dois». Depois de algum tempo separados e de voltarem a estar unidos, fizeram tudo juntos, até se tornarem, respetivamente, médico fisiatra e anatomopatologista.
Para outros, a separação chega mais tarde. Quando chega a altura de construir uma família, os caminhos afastam-se. Naturais do Morbihan, Amélie continuou a viver na Bretanha, em Rennes, enquanto Carole vive atualmente na Normandia. Uma é enfermeira de bloco operatório, a outra é dentista. A medicina une-as, mas não só. A corrida continua a aproximá-las à distância. «Sempre que ela vem a Rennes, quando estamos no mesmo sítio ou quando regressamos a casa dos meus pais, tento enviar-lhe o treino que tenho para fazer e fazemos-lo juntas. É mais fácil», conta Amélie.
Sem combinarem entre si, Amélie e Carole voltaram a correr em 2022. Quando uma engravidava e interrompia os treinos, a outra retomava-os definitivamente. «As nossas retomas acabaram por coincidir. Antes da gravidez, fiz os meus primeiros 10 km sem conhecer o meu ritmo para a distância. Parti para 40 minutos e sentia-me bem, por isso terminei em 39'17». Embora continuem atraídas por distâncias diferentes, uma privilegiando as provas curtas, sobretudo os 5 e os 10 km, e a outra as longas, entre trail, meia maratona e maratona, e vivam longe uma da outra, aproveitam todas as oportunidades para correr juntas. «Desde que retomámos, nunca tivemos oportunidade de voltar a fazer uma corrida juntas. Vamos correr a meia maratona de Amesterdão em outubro. Sou patrocinada pela Mizuno e, como são eles que patrocinam a prova, pedi-lhes dois dorsais. A ideia é vestirmo-nos de forma igual, já que somos parecidas como duas gotas de água, e terminarmos de mãos dadas. Vamos puxar uma pela outra e revezar-nos para conseguir o melhor tempo possível. É aí que se percebe realmente a vantagem de ter níveis semelhantes». As duas mantêm também vivo o sonho do pai: vencer a maratona de Pontivy, perto da aldeia onde cresceram, de mãos dadas.
É a mesma dinâmica que parece aproximar os irmãos Gras, federados no Alès Cévennes Athlétisme, que atravessam ambos «uma fase um pouco mais complicada», ligada à vida adulta e, no caso de um deles, a uma vida familiar bastante exigente. Embora vivam na mesma cidade, Clermont-Ferrand, os 10 km de Saint-Médard, em março, marcaram o reencontro na linha de partida: «Ultimamente, é verdade que temos estado lesionados de forma intermitente. Nos últimos anos, raramente conseguimos treinar e competir juntos». Damien impôs-se diante do irmão, que ficou impressionado e feliz por vê-lo regressar àquele nível: «Ele terminou em terceiro e eu em quarto. Fiquei um pouco surpreendido com o resultado dele, porque atualmente treina muito pouco. Esperava que isso lhe desse uma dose extra de motivação para retomar os treinos a sério, mas aparentemente não foi bem assim». Damien continua, ainda assim, muito ligado à prática desportiva, seja a correr, a pedalar na lama, na estrada ou a subir colinas.
Vamos correr a meia maratona de Amesterdão em outubro. Sou patrocinada pela Mizuno e, como são eles que patrocinam a prova, pedi-lhes dois dorsais. A ideia é vestirmo-nos de forma igual, já que somos parecidas como duas gotas de água, e terminarmos de mãos dadas.
Uma vantagem ligada a genes comuns
O desempenho conjunto das irmãs Sinquin deve-se à passada semelhante e à morfologia idêntica. «Temos boas predisposições: somos altas e magras, com o mesmo tipo físico. A formação na escola de atletismo deu-nos bases sólidas para a corrida de estrada: boa postura e um bom sistema cardiovascular». Tal como os irmãos Gras, que não hesitam quando falam do assunto: «Penso que temos uma morfologia muito adequada, com predisposições evidentes. Não teríamos atingido este nível apenas através do treino, embora tenhamos feito tudo o que era necessário para pôr as nossas capacidades em prática.»
Para lá das inegáveis particularidades físicas dos pares de gémeos e gémeas, parece manifestar-se uma ligação mais profunda e quase inexplicável, tanto nos atletas de Bordéus como nas bretãs. Michaël Gras relata uma observação surpreendente: «Muitas vezes, eu tinha as mesmas dores que ele, mas um pouco mais tarde. Isso permitia-me antecipar algumas lesões. Penso que há uma grande componente fisiológica». Mas não é o único a descrever um fenómeno deste género. «O sentimento de telepatia traduz sempre uma solidariedade psíquica muito estreita entre gémeos idênticos», explica René Zazzo, psicólogo clínico e universitário francês, no livro «Les jumeaux, le couple et la personne». «A surpreendente sintonia afetiva observada nos gémeos idênticos, com muito mais frequência e intensidade do que nos outros gémeos, conduz a formas partilhadas de linguagem, pensamento e reações corporais, que podem chegar ao sentimento de fenómenos parapsíquicos, como a comunicação de pensamentos e a telepatia». Num corta-mato, Carole terá chegado a chorar, sentindo que algo tinha acontecido à irmã. De facto, Amélie tinha sofrido um episódio vagal, quando «ela sentiu dentro de si que alguma coisa não estava bem». Esta história é apenas uma entre muitas, em que «a preocupação surge sem sabermos de onde vem. Às vezes telefonamo-nos e pergunto-lhe: “Está tudo bem? Não te aconteceu nada?” Para mim, é um pouco sobrenatural».
Ser gémeo não é, obviamente, uma condição indispensável para ter bons resultados na corrida, embora evoluir em dupla traga algumas vantagens físicas, fisiológicas e mentais. Para alguns, treinar a dois pode até ser contraproducente, por favorecer as comparações. Para manter o ritmo num ambiente saudável, Michaël Gras diz que é preciso serem «muito fraternais, até mesmo inseparáveis», algo que não acontece com todos os “pares” ou “duplos”. Vistas de fora, as semelhanças despertam interesse, tanto nas marcas que acompanham os atletas como nos espectadores, porque «a experiência do fascínio que os gémeos exercem sobre aqueles que tentam compreendê-los» (na obra «Les jumeaux : 1 fois 2 ou 2 fois 1 ?» de Christian Robineau e Mireille Wojakowski) é profundamente humana.
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