Não é preciso passaporte nem discursos pomposos para criar laços entre povos. Às vezes basta uma partida conjunta, 42 quilómetros para enfrentar e uma boa dose de suor partilhado. Por todo o mundo, a maratona transforma-se numa curiosa embaixadora, capaz de unir onde as cimeiras falham. E se correr lado a lado fosse já uma forma de começar a compreender o outro?
Num mundo em que as cimeiras internacionais por vezes se transformam num concurso de egos, existe outra forma de diálogo, muito mais simples e humana: a linguagem da passada. Longe dos discursos bem ensaiados e dos apertos de mão calculados, algumas maratonas, discretamente, desempenham um papel que muitas embaixadas gostariam de ter. Um papel de ligação. De ponte. De tradutor silencioso entre culturas que, no papel, nada teriam para dizer umas às outras. Afinal, às vezes um par de sapatilhas faz mais pela aproximação do que um fato e uma gravata.
Um esforço conjunto, uma linguagem universal
Há algo de profundamente igualitário no ato de correr. Não é preciso falar a mesma língua para saber que 42,195 km são longos. Muito longos. A maratona não tem sotaque nem fronteiras. Tem apenas uma linha de partida, uma meta e, pelo meio, uma bela prova de sofrimento partilhada com desconhecidos vindos dos quatro cantos do mundo.
Vejamos Nova Iorque, por exemplo. A sua maratona reúne todos os anos mais de 50 000 corredores de quase 150 países. Iniciantes, profissionais, anónimos, estrelas. Pessoas que nunca se teriam cruzado noutro lugar e que ali transpiram juntas pelas ruas de Brooklyn ou do Central Park. Uma fraternidade efémera, é certo, mas real. Um momento suspenso em que as diferenças se dissolvem no esforço coletivo.
Correr pela paz: provas carregadas de simbolismo
Algumas maratonas vão além da simples reunião de pessoas. São pensadas como mensagens. Apelos à união em contextos tensos, por vezes explosivos. Em Jerusalém, por exemplo, a maratona atravessa tanto a cidade nova como os bairros palestinianos de Jerusalém Oriental. Um percurso israelita polémico, sem dúvida, mas também uma forma de juntar, ainda que por um instante, populações com realidades radicalmente diferentes. O mesmo acontece em Beirute: na capital do Líbano, a prova nasceu como resposta à guerra de 2006. O objetivo? Mostrar que o Líbano, apesar das suas fraturas políticas e religiosas, pode avançar unido. Nem sempre é perfeito, mas já é um passo, ou melhor, alguns milhares.
E depois há Pyongyang, na Coreia do Norte. Uma das maratonas mais fechadas do mundo, num dos países mais fechados do mundo. Ainda assim, este ano, alguns corredores estrangeiros foram autorizados a participar. Uma forma de o regime se abrir simbolicamente, um pouco, ao mundo. E, para os participantes, uma oportunidade única de conhecer uma sociedade de outra maneira que não através dos documentários assustadores da televisão.
Um terreno neutro, aberto a todos
A maratona tem também este poder quase mágico de criar um espaço neutro. Não é preciso pertencer a uma nação, religião ou ideologia para alinhar à partida. Basta ter coragem para se inscrever, treinar (um pouco) e estar preparado para sofrer durante muito tempo. É isso que lhe dá beleza: todos estão sujeitos às mesmas regras. Em Tóquio, Paris, Londres ou Chicago, vemos as mesmas cenas: high-fives entre desconhecidos, “let’s go” gritados com o sotaque do outro lado do mundo, palmadas nas costas entre corredores com camisolas radicalmente diferentes.
E, para lá da própria corrida, as maratonas são também espaços de intercâmbio cultural. Nas fan zones, nos stands, nas aldeias dos expositores… fala-se de comida, música, tradições e treino. Descobrimos o outro sem sequer procurar fazê-lo. Tudo isto à volta de um gel energético com sabor a banana química.
Quando a geopolítica entra no percurso
Também não vale a pena ser ingénuo: por vezes, estas maratonas são usadas pelos Estados como ferramentas de soft power. A Maratona do Dubai, por exemplo, é uma boa forma de os Emirados exibirem a sua modernidade e abertura. A de Pequim está montada como uma montra desportiva da China, onde cada detalhe é controlado. Mas mesmo aí, sob a camada de comunicação oficial, existem interações humanas. E talvez seja essa a parte mais importante: aquilo que escapa ao controlo, aquilo que nasce espontaneamente entre os participantes.
Correr juntos, pensar juntos?
Não, uma maratona não vai resolver um conflito internacional nem assinar um tratado de paz. Mas pode contribuir para algo mais difuso e mais íntimo: a compreensão mútua. O respeito. Talvez até a vontade de olhar para o outro de forma diferente. Porque quando corremos ao lado de alguém durante quatro horas, sofremos juntos, incentivamo-nos e rimo-nos no meio da dor… já não conseguimos reduzi-lo verdadeiramente ao seu país, à sua religião ou às suas opiniões. Torna-se apenas outro ser humano que luta, como nós, para cruzar a linha de chegada. E isso talvez seja o início de alguma coisa.
Sim, é um pouco idealista. Mas num mundo que corre um pouco em todas as direções, sabe bem acreditar que um simples dorsal pode, por vezes, valer mais do que um longo discurso. E entre duas nações que se ignoram, uma passada partilhada já é um pequeno passo na direção certa.
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