Porque é que estás sempre a contar a tua corrida? Mesmo quando ninguém perguntou
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Gabarolice, falta de confiança, necessidade de reconhecimento ou simples orgulho? Porque é que os corredores sentem (quase) sempre necessidade de contar a maratona, mesmo quando ninguém lhes perguntou nada? É um fenómeno tão comum quanto inexplicável. Decidimos tentar perceber melhor. Eis algumas hipóteses, inevitavelmente subjetivas, mas não totalmente descabidas.
Hipótese 1: Não há nada mais interessante
No escritório, à segunda-feira, chega a grande conversa sobre o fim de semana. A Cécile conta como foi visitar os sogros, o Maël descreve ao pormenor a maratona de videojogos e a Pascale está toda orgulhosa por ter vendido uma cómoda no Le Bon Coin. Mas tu correste uma maratona a sério. Por isso, quando surge a famosa pergunta: « E tu, como foi o teu fim de semana? » É impossível resistir. E começa: « Fui a Nice para a maratona. O tempo estava perfeito: sol, mas sem demasiado calor. Organização impecável, abastecimentos de qualidade, exceto ao quilómetro 35, quando tive uma cãibra. E sabes que mais? Não havia spray refrescante à mão. Mas aguentei-me. E depois, mesmo antes da meta, uma senhora sentiu-se mal mesmo à minha frente... Mas terminei forte, estava mesmo em grande forma. » Nessa altura, já ninguém está a ouvir. Cada um voltou aos seus emails. E tu regressas ao teu lugar, com um sorriso no canto da boca. Porque sim, sabes que o teu fim de semana foi, ainda assim, um pouco mais épico do que o dos outros.
Hipótese 2: É (um pouco) gabarolice
Objetivo anunciado: completar os 42,195 km em três horas. Três meses de treino intensivo com o treinador, disciplina de monge e longões ao amanhecer. E, na meta, o jackpot: 2h59’07 no relógio. É natural que o segredo não dure muito. « Ah, sim, eu fiz sub-3 na minha última maratona. Sinceramente, foi tranquilo. » E esta pequena frase transforma-se num distintivo de honra, usado à primeira oportunidade. Mesmo (e sobretudo) quando ninguém perguntou. « Olá! Prazer em conhecer-te. Já agora, alguma vez fizeste uma maratona? Não? É que eu já, sub-3, estás a ver...»
Hipótese 3: A paixão pelas dissertações
Introdução, problema, desenvolvimento em três partes, conclusão e abertura. Eis o método dos corredores para responder à pergunta « E tu, como correu a tua prova? », se a pessoa que perguntou soubesse... A resposta que a espera está longe de ser breve. Desde a viagem até ao levantamento do dorsal, sem esquecer os percalços, o gel fora de prazo, a corrida, a queda ao quilómetro 38, a meta, a medalha, a t-shirt de finisher demasiado grande ou o transporte de regresso. Em suma, a resposta parece uma folha de exame frente e verso, com o tema “E se a linha de chegada não passasse de uma ilusão, uma miragem para dar sentido ao esforço?”. Têm quatro horas.
Hipótese 4: Partilhar a paixão pelo desporto
Não perguntaram nada, mas são amigos que praticam desporto, por isso é claro que vão interessar-se. Ou pelo menos é isso que o corredor pensa quando começa, cheio de entusiasmo, a contar a sua maratona. Só que, na realidade, um joga xadrez, outro joga golfe, a Emma pratica equitação e o Jérémy faz paraquedismo. Escusado será dizer que as discussões apaixonadas sobre as laranjas pegajosas nos abastecimentos, as peripécias de um dorsal mal preso ou o ritmo por quilómetro talvez não despertem grande entusiasmo. Mas o corredor insiste, convencido de que, no fundo, o desporto une toda a gente. Mesmo quando, à volta da mesa, já começam a falar do último episódio de uma série ou do torneio de bridge da tia Monique.
Hipótese 5: Correr é uma droga
Depois da maratona, é descanso forçado. Nada de corrida, séries ou sequer um pequeno treino de recuperação. O corpo regenera-se, mas a cabeça continua a todo o gás. Para preencher o vazio, substitui-se a prática pela teoria. Na falta de correr, fala-se sobre corrida. Repetidamente. A oportunidade perfeita para reviver, quilómetro a quilómetro, a última prova: as pernas leves na partida, a subida do quilómetro 27, a cãibra ao 35, o sprint final, a medalha. Uma forma como outra qualquer de aliviar a abstinência. Porque, no fundo, correr é um pouco como uma dependência, e contar a história é continuar a correr, mas com palavras.
Hipótese 6: Realizar um sonho, que orgulho
Este Marathon de Paris era o desafio do ano de 2025. Um desafio e tanto, apenas um ano depois de começar a correr. Aceitou o desafio e cumpriu-o: uma maratona, 42,195 quilómetros. É impossível conter a alegria, a vontade de contar a toda a gente, sem sequer saber muito bem porquê.
Hipótese 7: O efeito das redes sociais
Entre o Instagram e o Strava, o resumo da prova é mesmo importante. Pensaste tanto nele que sabes a descrição da publicação de cor. Por isso, quando falas do teu feito, recitas o texto.
O corredor que conta a sua prova nem sempre está a gabar-se. Muitas vezes, procura dar sentido ao que fez, criar laços ou afirmar a sua existência num mundo onde tudo acontece depressa e até os esforços parecem precisar de ser justificados e validados.