A pele em jogo: como o corpo se torna um território para gerir, antecipar e proteger
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Mamilos em chamas, virilha em guerra, pés devastados. Mais cedo ou mais tarde, todo corredor acaba por desenhar, à própria custa, o mapa das suas zonas sensíveis. Mas por que razão algumas áreas cedem sistematicamente? O que acontece realmente sob a pele quando encadeamos milhares de passadas? Com a ajuda da Dra. Stéphanie Leclerc-Mercier, dermatologista em Paris e no INSEP, além de fundadora da associação Dans la Peau des Sportifs, fomos perceber a mecânica para melhor a contrariar.
Sumário
- O suor, cúmplice e acelerador
- Os pés, a primeira frente de batalha
- Os mamilos, símbolo de uma lesão evitável
- A virilha, um caso à parte
- As axilas e a zona lombar
- Por que razão alguns sofrem mais do que outros
- O que funciona realmente, e o que não funciona
- Durante a prova, o que fazer quando já é tarde demais?
- A regra de ouro: testar tudo antes
A corrida é um desporto de repetição. Uma maratona de 42 quilómetros representa entre 35 000 e 40 000 passadas. Outras tantas vezes em que as mesmas zonas da pele são comprimidas, puxadas e roçadas contra um tecido, uma costura ou outra superfície cutânea. Com este nível de repetição, até a pele mais resistente acaba por ceder. Existe uma ciência dedicada a estes fenómenos: a tribologia, ou seja, o estudo das forças de fricção entre duas superfícies em contacto. Aplicada ao corpo humano, ajuda a perceber por que razão as lesões aparecem onde aparecem, e não noutro sítio. A Dra. Stéphanie Leclerc-Mercier distingue dois mecanismos bem diferentes. O primeiro diz respeito à fricção superficial: um tecido, uma costura ou uma correia que vai desgastando a epiderme ao longo dos quilómetros. «É uma abrasão superficial da epiderme que remove as primeiras camadas e deixa a parte superior da derme exposta», explica. Dói, causa ardor e é aquilo a que os anglo-saxónicos chamam chafing. Vermelhidão, queimaduras e irritações na virilha ou nas axilas pertencem a esta primeira categoria.
O segundo mecanismo é mais profundo e potencialmente mais incapacitante. Sobretudo nos pés, a pele fica presa entre uma superfície externa, como a meia ou a palmilha, e as estruturas ósseas internas. Quando o movimento se repete milhares de vezes, as diferentes camadas da pele deixam de se mover em conjunto. A epiderme adere à meia, enquanto os ossos prosseguem a sua trajetória. Esta dissociação gera forças internas de cisalhamento, que acabam por provocar um descolamento na junção dermoepidérmica: é a bolha. Um estudo de Lipman e colaboradores (2016), realizado com 128 corredores, confirma que 50% das bolhas se formam nos dedos dos pés e 23% no calcanhar, precisamente duas zonas onde as forças de cisalhamento são mais elevadas devido à morfologia do pé e ao contacto repetido com o solo.
O suor, cúmplice e acelerador
Seria possível imaginar que o suor desempenha um papel lubrificante, criando uma camada de água entre a pele e o tecido que facilitaria o deslizamento. É uma pista errada. «Para deslizar, é preciso gordura. O suor contém sal, e é precisamente disso que a pele não precisa de forma permanente», afirma a Dra. Leclerc-Mercier, bastante ativa no Instagram sob o nome @the_outdoor_dermato. Na realidade, o suor agrava a fricção de duas formas. Primeiro, mecanicamente: a pele húmida adere mais ao tecido do que a pele seca, aumentando as forças de fricção em vez de as reduzir. Depois, quimicamente: o sal da transpiração irrita diretamente a epiderme, criando um efeito osmótico sobre as células cutâneas que as fragiliza até as fazer rebentar. «Sal, suor e fricção: é um cocktail explosivo», resume a dermatologista.
O calor exterior amplifica o fenómeno. Temperatura elevada, humidade ambiente e maceração: as condições das provas de verão reúnem todos os fatores agravantes. Os eventos de inverno também não estão a salvo, porque, com o frio, os mamilos contraem-se e tornam-se mecanicamente mais salientes, ficando mais expostos à fricção do tecido.
Os pés, a primeira frente de batalha
É a zona mais documentada e estudada e, paradoxalmente, aquela que os corredores costumam gerir com menos rigor. As bolhas estão entre as principais causas de abandono em longas distâncias, um dado que deveria bastar para colocar a preparação dos pés no centro da rotina de qualquer corredor. A origem do problema é quase sempre o equipamento. Um par de sapatilhas com a toe box demasiado estreita ou larga, meias com costuras mal posicionadas ou, erro clássico, um modelo habitualmente utilizado, mas ainda não adaptado na sua nova versão. «Corro com as Adizero 7 e comprei as 8 a pensar que eram iguais. Mas não têm as mesmas espumas, nem necessariamente o mesmo ajuste», exemplifica a Dra. Leclerc-Mercier. Resultado garantido à chegada.
O endurecimento da pele, uma prática comum entre os corredores de fundo, pode ter interesse real, ao engrossar a epiderme e torná-la mais resistente às forças de cisalhamento. Mas o excesso produz o efeito contrário: uma camada de calosidade demasiado espessa também roça nas camadas profundas e gera bolhas profundas, particularmente dolorosas. Daí a utilidade de consultar um podologista antes de uma prova importante, não para obter palmilhas, mas para limpar e ajustar a hiperqueratose.
O erro clássico é a t-shirt da prova. Levantamos o dorsal, recebemos a t-shirt da corrida e, no domingo, vestimo-la sem nunca a termos lavado ou testado. É meio caminho andado para ficarmos com os mamilos em carne viva.
Os mamilos, símbolo de uma lesão evitável
O jogger’s nipple ou runner’s nipple na literatura anglófona tornou-se a imagem clássica do maratonista em sofrimento. Estudos mostram que cerca de 36% dos corredores que percorrem mais de 65 km por semana passam por este problema. Nas provas de massas, não são raras as t-shirts ensanguentadas na zona do peito. A vulnerabilidade dos mamilos explica-se pela sua posição anatómica e pela ausência de proteção natural nos homens. Ao contrário de outras zonas, ficam diretamente em contacto com o tecido, sem qualquer amortecimento. Com tempo fresco, ficam eretos e, portanto, mais proeminentes e expostos. Com calor, a transpiração agrava a abrasão.
A dermatologista é categórica quanto à origem do problema: «O erro clássico é a t-shirt da prova», explica. «Levantamos o dorsal, recebemos a t-shirt da corrida e, no domingo, vestimo-la sem nunca a termos lavado ou testado. É meio caminho andado para ficarmos com os mamilos em carne viva.» Os cremes barreira ou a fita adesiva aplicados antes da partida continuam a ser as soluções mais eficazes.
A virilha, um caso à parte
Zona sujeita a uma dupla pressão, com fricção mecânica e maceração, a virilha reúne permanentemente dois dos três fatores agravantes. O movimento de cisalhamento entre as coxas a cada passada provoca uma abrasão contínua, amplificada pelo calor e pela humidade que se acumulam nesta zona fechada.
A Dra. Leclerc-Mercier recomenda sempre o uso de calções justos em todas as longas distâncias, mesmo que sejam usados por baixo de uns calções largos ou de uma saia. «Com os calções justos, há muito menos fricção», afirma a fundadora da associação Dans la Peau des Sportifs (@danslapeau_dessportifs), dedicada à prevenção, educação e investigação sobre os problemas de pele dos desportistas. «Com os calções curtos e a cueca integrada, roça muito mais.» Um creme barreira aplicado antes da partida constitui a segunda linha de defesa, desde que seja reaplicado regularmente, porque a sua eficácia geralmente não ultrapassa uma a duas horas.
As axilas e a zona lombar
Menos referidas, mas observadas regularmente em consulta, as axilas são uma zona de fricção frequente. O movimento pendular dos braços está para a corrida como a passada está para as pernas. Um tecido com costuras grossas ou mal posicionadas pode bastar para transformar uma saída longa numa sessão de tortura.
Quando vejo alguém cuja t-shirt sobe durante a corrida, aviso-o sempre.
A zona lombar merece atenção especial por parte dos corredores que utilizam um cinto de corrida ou uma mochila. A t-shirt que sobe por baixo do equipamento expõe aos efeitos dos quilómetros uma faixa de pele fina, pouco habituada ao contacto repetido. «Quando vejo alguém cuja t-shirt sobe durante a corrida, aviso-o sempre», conta a Dra. Leclerc-Mercier. A mesma lógica aplica-se aos corredores que usam auscultadores com fios passados à volta do pescoço: com a transpiração, o cabo pode tornar-se uma fonte inesperada de irritação.
Por que razão alguns sofrem mais do que outros
A pergunta surge muitas vezes, e a resposta é mais complexa do que parece. Ao contrário do que se pensa, a constituição física é apenas um fator secundário. «Coxas volumosas vão roçar um pouco mais, sim. Mas, de forma geral, os dois fatores mais determinantes continuam a ser a transpiração e o número de repetições, como a duração, a distância e a intensidade do esforço», esclarece a dermatologista.
Existem, contudo, fragilidades cutâneas de origem genética. Algumas pessoas têm uma junção dermoepidérmica naturalmente menos robusta, cujos sistemas de ligação são estruturalmente menos resistentes às forças de cisalhamento. Estes perfis desenvolvem bolhas de forma desproporcional em relação a quem os rodeia, nas mesmas condições de esforço. Por vezes, é numa primeira prova longa que descobrem esta realidade.
O que funciona realmente, e o que não funciona
Mas como encontrar algo que resulte? O princípio dos cremes barreira é simples: depositar uma película gordurosa à superfície da pele para evitar o contacto direto entre o suor salgado e a epiderme. «Comparo-os a um pequeno escudo», explica a Dra. Leclerc-Mercier. Mas têm uma duração limitada em longas distâncias, o que implica levá-los consigo ou deixá-los no apoio para reaplicar durante a prova. Em ultradistâncias, alguns corredores transportam pequenas saquetas individuais para renovar a aplicação.
Fiquei chocada ao ver atletas de alto nível de trail chegarem de provas com os pés num estado deplorável. Para mim, uma ida ao podologista antes da prova é obrigatória.
A eficácia da fita adesiva nos pés é discutível. Embora os corredores a utilizem em massa nas zonas de risco, a literatura científica não reconhece eficácia comprovada na prevenção de bolhas. Pior: uma fita mal colocada que se descole durante a prova pode criar novas zonas de fricção ao enrolar-se. Nos mamilos, pelo contrário, continua a ser uma das soluções mais fiáveis quando é corretamente aplicada e adequada ao esforço. A técnica da meia dupla, durante muito tempo promovida, também não demonstrou eficácia nos estudos disponíveis. A moda passou, provavelmente porque os resultados não acompanhavam a promessa. Uma meia técnica bem escolhida, com o mínimo possível de costuras e uma espessura adequada ao formato do pé, continua a ser a melhor opção.
Poucos corredores pensam nisto durante a preparação. No entanto, uma consulta algumas semanas antes da competição é importante, não apenas para obter palmilhas, mas também para limpar as zonas de hiperqueratose, identificar potenciais pontos de fricção e preparar a pele para o esforço. Pode mudar radicalmente a experiência da prova. «Fiquei chocada ao ver atletas de alto nível de trail chegarem de provas com os pés num estado deplorável. Para mim, uma ida ao podologista antes da prova é obrigatória», conta a Dra. Leclerc-Mercier.
Durante a prova, o que fazer quando já é tarde demais?
Numa maratona ou meia maratona, a resposta honesta é muitas vezes cerrar os dentes e continuar. Poucos corredores param para tratar uma irritação quando têm um objetivo de tempo em mente. Mas nas longas distâncias, e ainda mais no trail, a reação certa perante uma bolha é intervir aos primeiros sinais, em vez de esperar que torne a prova impossível. O kit de sobrevivência recomendado para uma mochila de trail inclui uma tesoura pequena de pontas redondas, um toalhete desinfetante e pensos hidrocoloides. Estes últimos criam uma almofada protetora sobre a zona lesionada sem aderirem à ferida, ao contrário dos pensos tradicionais, que arrancam pele quando são retirados. Fixados com uma tira adesiva leve para evitar que se enrolem com o esforço, já salvaram muitos finais de prova.
Para as irritações no peito ou na virilha, a margem de manobra é mais curta. Tirar a t-shirt continua a ser uma opção para os homens nos eventos que o permitem. Caso contrário, ter no apoio creme barreira de reserva e um segundo par de meias secas pode fazer toda a diferença, inclusive em provas de longa distância nas quais somos tentados a nunca parar.
A regra de ouro: testar tudo antes
A Dra. Leclerc-Mercier regressa a este ponto em todas as conversas: «Não existe uma receita mágica. A melhor forma de evitar que aconteça é evitar que aconteça.» No fundo, a prevenção assenta num princípio de uma simplicidade desconcertante: nunca usar algo desconhecido no dia de uma prova. Nada de sapatilhas novas, t-shirts novas ou meias novas. E, se possível, testar cada elemento do equipamento em treinos longos antes de o levar para uma competição.
Para os maratonistas, resume tudo em três conselhos: testar o conjunto completo da roupa nos treinos longos até encontrar a combinação que não provoca problemas; aplicar um creme barreira ou anti-fricção nas zonas sensíveis conhecidas antes da partida; e consultar um podologista algumas semanas antes da prova. Não há mistério nem gadget milagroso. Apenas antecipação, método e o reflexo de nunca subestimar aquilo que milhares de passadas podem fazer a três milímetros de pele.
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