Marathon des Sables: conversámos com Cyril Gauthier, o homem à frente da prova mítica
Cyril Gauthier lidera a organização do Marathon des Sables há quase cinco anos e não para de renovar o catálogo de provas extremas para responder à procura crescente dos apaixonados pelo trail e dos curiosos da aventura. Do sucesso do MDS Legendary, a célebre corrida de 250 km pelo sul do Saara marroquino, aos novos formatos como o MDS Handi, lançado em outubro de 2024, ou os MDS Crazy Loops, estreados este verão num cenário de montanha, a equipa multicultural responsável pelo projeto procura oferecer uma vasta gama de eventos que combinem inclusão, acessibilidade e espírito de comunidade.
Com os seus vários formatos, distribuídos ao longo do ano, o Marathon des Sables destaca-se. Já não é apenas a mítica prova de 250 km em autonomia alimentar, dividida por seis etapas. Desde 2017, o conceito do MDS Legendary, que celebrará a sua 40.ª edição em abril de 2026, cresceu e vai muito mais longe, mantendo sempre no centro a vontade de «dar um sentido à corrida, partilhar e trocar experiências», seja num acampamento entre as dunas do deserto ou em altitude, a 1850 m. O Marathon des Sables continua assim a expandir-se através de uma multiplicidade de formatos, graças ao que Cyril chama «uma ultra-organização», sem nunca perder o seu ADN.
Uma edição fora do comum para o 40.º aniversário
Menos de uma semana depois da abertura das inscrições para a famosa edição de 2026 do MDS Legendary, as vagas já estavam esgotadas. É um sinal da reputação deste evento, que todos os anos atrai multidões. «O objetivo é que os corredores tenham surpresas praticamente todos os dias», explica Cyril Gauthier, que, ainda assim, pouco revela sobre as novidades que aí vêm. É claro que os mais de mil felizardos «sabem que alguma coisa vai acontecer. Mas só vão descobri-lo quando entrarem no autocarro que os levará para o deserto». Até lá, muitas perguntas continuam sem resposta: «Não poderá ter menos de 250 km, mas será mais longa ou não? E exatamente onde?» Uma das mudanças mais marcantes dos últimos dois anos foi a eliminação da prova solidária, «obrigatória, mas com desqualificação para quem não a fizesse», substituída por uma meia maratona exigente, que conta verdadeiramente como um dia inteiro de competição. Ficam, portanto, as próximas novidades por anunciar.
Enquanto se espera por abril, importa recordar o verdadeiro motor do MDS Legendary. «O que gosto é que as pessoas falam umas com as outras. Não importa se alguém é dez vezes melhor do que nós: essa pessoa dá-nos a sua opinião e nós damos-lhe a nossa noutra área. Podemos partilhar experiências com pessoas de 40 países diferentes», descreve o organizador do evento. O desporto proporciona esse encontro humano. Nestes formatos de ultracorrida, a libertação de endorfinas favorece uma abertura ao outro que não encontramos no quotidiano. «Estar numa tenda, em ligação total com a natureza, seja no deserto jordano ou marroquino, seja nas montanhas de Courchevel ou La Rosière, perante uma natureza majestosa que domina tudo, é incrível», recorda Cyril.
Os MDS Crazy Loops, um formato inédito
Entre julho e agosto, as estâncias de La Rosière e, depois, Courchevel serviram de teste para o lançamento de provas de trail fora do comum: os MDS Crazy Loops. As duas edições reuniram cerca de 250 participantes, com o objetivo de chegar aos 1000 finalistas por local no próximo ano. Estes três dias imersivos em plena montanha têm uma identidade única. Numa prova de cerca de 5 km, que consiste em correr durante 24 horas, de dia e de noite, para completar o maior número possível de voltas, os traileiros são levados a superar-se e, sobretudo, a entreajudar-se.
Entre três e cinco equipas Handi, formadas por uma pessoa com deficiência, um elemento que puxa e outro que empurra, partilharam o percurso com os restantes corredores. Foi um desafio para a organização, que mal podia acreditar que tinha conseguido levar cadeiras de rodas para a areia, e que depois se lançou na aventura da alta montanha, onde também não encontrou grandes obstáculos. «Ninguém imaginava conseguir fazer passar uma cadeira pelo itinerário muito técnico dos ultratraileiros. E, no entanto, graças aos helping runners, foi possível. Paravam 25 segundos ou 5 minutos, ajudavam e retomavam a prova. Até os atletas de elite deram uma mão. Foi fantástico, tocou toda a gente.»
Embora não fossem o objetivo principal, houve boas prestações, não só entre a elite, mas também nas equipas Handi, que «se desafiaram a fazer o maior número possível de voltas, mesmo durante a noite». Ao longo daqueles três dias, a liberdade foi total. «Alguns quase não param e vivem verdadeiramente a experiência da ultracorrida. Outros, que nunca tinham corrido mais de 15 km, acabam por fazer 50 km na montanha. É muito duro. Descobrem capacidades que nem imaginavam ter». Nada disto seria possível sem o dispositivo rigoroso montado para o evento e, sobretudo, sem a energia das equipas no terreno. «A organização está em todo o lado. Quando há pessoas a tratá-lo constantemente pelo seu nome, sente-se apoiado e acarinhado.»
Em agosto, os organizadores fizeram o balanço dos aspetos positivos e negativos dos dois eventos. «O nosso trabalho agora é olhar para tudo o que foi mágico e para o que precisa de ser melhorado. Mas foi um enorme sucesso junto dos corredores, das equipas Handi, das autarquias e da nossa equipa, que percebeu que também há eventos para organizar no verão». A inclusão está verdadeiramente no centro da iniciativa: «Queremos mostrar que correr com equipas Handi, mesmo sendo uma ultra e uma prova muito difícil, muda absolutamente tudo». Para já instalado em dois locais, este formato deverá certamente chegar a França, Itália, Suíça, Áustria, Alemanha e outros países. Desde o fim dos testes, os organizadores receberam vários pedidos de colaboração por parte das estâncias, prova do sucesso deste primeiro passo.
Mais mulheres na partida: um recorde absoluto
«O recorde que batemos e de que mais nos orgulhamos é o de 60% de mulheres no MDS 120, na Capadócia», conta o responsável pelo Marathon des Sables. «Em média, em todos os MDS 120, nunca tivemos menos de 50% de mulheres, algo inédito no mundo da ultracorrida». Estes números impressionantes não surgiram por acaso. Para lá chegar, foi desenvolvido um trabalho de fundo. Desde o lançamento do MDS 120, em 2017, a comunicação centrou-se nas mulheres, com o objetivo de lhes dar confiança nas suas capacidades: «Deixem de acreditar que a ultracorrida não é para vocês. É para vocês, e nós vamos prová-lo.» Para transformar as palavras em atos, foram implementadas medidas específicas para que as mulheres se sentissem plenamente integradas na prova. Em cada evento, têm acesso a todos os produtos de higiene feminina necessários. Agora, «já não fingimos que homens e mulheres são iguais». Desde 2024, o MDS Legendary disponibiliza tendas reservadas às mulheres, enquanto no MDS 120 todos os participantes têm tendas individuais. Estas medidas permitem que as mulheres se sintam mais confortáveis e seguras durante toda a prova.
Esta missão pela igualdade de género procura combater a ideia feita de que «as mulheres não foram feitas para a ultracorrida e não conseguem transportar uma mochila». Em 2017, a ideia de que as mulheres poderiam ter um desempenho tão bom como os homens nesta área era motivo de riso, e apenas 10% dos participantes eram mulheres. «Hoje, para nós, esta batalha está praticamente ganha. Alcançaremos o equilíbrio sem dificuldade, porque já ninguém dentro dos Marathons des Sables duvida de que as mulheres são tão capazes como os homens.» No MDS Legendary, o objetivo é chegar aos 50% nos próximos três a cinco anos, contra apenas 27% este ano. Cyril mantém-se confiante: «Quando provamos, através dos testemunhos de mulheres, que é possível, elas atrevem-se a experimentar». E, melhor ainda, chegam aos lugares cimeiros, como Maryline Nakache, quarta da classificação geral do MDS Legendary 2025.
O que conta é o lado humano. É poderoso, é real. Sentimo-lo na pele.
Uma forte aposta no desporto adaptado
Em outubro de 2024, dez equipas alinharam à partida do MDS 120, em Marrocos. Inesperada, a sua participação «foi um sucesso absoluto, porque os corredores adoraram». Perante as reações dos 600 a 700 participantes sem deficiência, a organização percebeu que «correr com pessoas com deficiência era muito mais forte e despertava uma vontade completamente diferente: a de ajudar e partilhar». Esta descoberta revelou-se um verdadeiro tesouro e levou os organizadores a afirmar-se nesta área.
Assim, o futuro MDS Handi, previsto para 2026, reunirá nada menos do que 50 equipas. Para garantir o bom funcionamento destas edições e dos restantes formatos que acolhem atletas do desporto adaptado, o investimento da organização é total. Ao comprar 60 cadeiras de rodas, o MDS tornou-se o maior investidor neste domínio. Em conjunto com a Société Bretonne e a Vipamat, desenvolveu uma cadeira reforçada, supostamente indestrutível. Ainda assim, se algo correr mal no terreno, está tudo previsto: «Temos uma oficina de cadeiras, com peças sobresselentes e técnicos presentes na prova, para que todos estejam em igualdade de circunstâncias e não tenham de se preocupar por terem partido uma roda». O único objetivo dos participantes deve ser competir, seja nas dunas ou na montanha. Esta missão de inclusão é longa e dispendiosa, mas a organização não vai afastar-se dela. «A nossa visão é mostrar que a inclusão faz sentido na corrida e que torna a prova ainda mais bonita: podemos correr de pé, mas também sentados.»
Quarenta anos depois, o Marathon des Sables continua mais atual do que nunca. Com os seus doze formatos, do ancestral Legendary ao Ultra, uma prova única de 100 km ou 100 milhas, à escolha, para aproveitar o céu límpido do deserto no inverno, limitada a 200 corredores e marcada para janeiro, passando pelo Raid Namibie, o 120 Handi, o Trek Maroc e os Crazy Loops, domina claramente o universo da ultracorrida, embora não necessariamente pelas mesmas razões que os seus equivalentes alpinos. Mantém o conceito inicial: partilhar um momento de aventura, não para desafiar os elementos ou provar a própria existência, mas para se divertir, desfrutar e regressar com os olhos a brilhar de deslumbramento. O MDS contraria as ideias feitas sobre si próprio. Não é apenas o calor e a areia que o definem, mas «sobretudo o calor humano» que dele emana.
Cyril Gauthier lidera a organização do Marathon des Sables há quase cinco anos e não para de renovar o catálogo de provas extremas para responder à procura crescente dos apaixonados pelo trail e dos curiosos da aventura. Do sucesso do MDS Legendary, a célebre corrida de 250 km pelo sul do Saara marroquino, aos novos formatos como o MDS Handi, lançado em outubro de 2024, ou os MDS Crazy Loops, estreados este verão num cenário de montanha, a equipa multicultural responsável pelo projeto procura oferecer uma vasta gama de eventos que combinem inclusão, acessibilidade e espírito de comunidade.
Com os seus vários formatos, distribuídos ao longo do ano, o Marathon des Sables destaca-se. Já não é apenas a mítica prova de 250 km em autonomia alimentar, dividida por seis etapas. Desde 2017, o conceito do MDS Legendary, que celebrará a sua 40.ª edição em abril de 2026, cresceu e vai muito mais longe, mantendo sempre no centro a vontade de «dar um sentido à corrida, partilhar e trocar experiências», seja num acampamento entre as dunas do deserto ou em altitude, a 1850 m. O Marathon des Sables continua assim a expandir-se através de uma multiplicidade de formatos, graças ao que Cyril chama «uma ultra-organização», sem nunca perder o seu ADN.
Uma edição fora do comum para o 40.º aniversário
Menos de uma semana depois da abertura das inscrições para a famosa edição de 2026 do MDS Legendary, as vagas já estavam esgotadas. É um sinal da reputação deste evento, que todos os anos atrai multidões. «O objetivo é que os corredores tenham surpresas praticamente todos os dias», explica Cyril Gauthier, que, ainda assim, pouco revela sobre as novidades que aí vêm. É claro que os mais de mil felizardos «sabem que alguma coisa vai acontecer. Mas só vão descobri-lo quando entrarem no autocarro que os levará para o deserto». Até lá, muitas perguntas continuam sem resposta: «Não poderá ter menos de 250 km, mas será mais longa ou não? E exatamente onde?» Uma das mudanças mais marcantes dos últimos dois anos foi a eliminação da prova solidária, «obrigatória, mas com desqualificação para quem não a fizesse», substituída por uma meia maratona exigente, que conta verdadeiramente como um dia inteiro de competição. Ficam, portanto, as próximas novidades por anunciar.
Enquanto se espera por abril, importa recordar o verdadeiro motor do MDS Legendary. «O que gosto é que as pessoas falam umas com as outras. Não importa se alguém é dez vezes melhor do que nós: essa pessoa dá-nos a sua opinião e nós damos-lhe a nossa noutra área. Podemos partilhar experiências com pessoas de 40 países diferentes», descreve o organizador do evento. O desporto proporciona esse encontro humano. Nestes formatos de ultracorrida, a libertação de endorfinas favorece uma abertura ao outro que não encontramos no quotidiano. «Estar numa tenda, em ligação total com a natureza, seja no deserto jordano ou marroquino, seja nas montanhas de Courchevel ou La Rosière, perante uma natureza majestosa que domina tudo, é incrível», recorda Cyril.
Os MDS Crazy Loops, um formato inédito
Entre julho e agosto, as estâncias de La Rosière e, depois, Courchevel serviram de teste para o lançamento de provas de trail fora do comum: os MDS Crazy Loops. As duas edições reuniram cerca de 250 participantes, com o objetivo de chegar aos 1000 finalistas por local no próximo ano. Estes três dias imersivos em plena montanha têm uma identidade única. Numa prova de cerca de 5 km, que consiste em correr durante 24 horas, de dia e de noite, para completar o maior número possível de voltas, os traileiros são levados a superar-se e, sobretudo, a entreajudar-se.
Entre três e cinco equipas Handi, formadas por uma pessoa com deficiência, um elemento que puxa e outro que empurra, partilharam o percurso com os restantes corredores. Foi um desafio para a organização, que mal podia acreditar que tinha conseguido levar cadeiras de rodas para a areia, e que depois se lançou na aventura da alta montanha, onde também não encontrou grandes obstáculos. «Ninguém imaginava conseguir fazer passar uma cadeira pelo itinerário muito técnico dos ultratraileiros. E, no entanto, graças aos helping runners, foi possível. Paravam 25 segundos ou 5 minutos, ajudavam e retomavam a prova. Até os atletas de elite deram uma mão. Foi fantástico, tocou toda a gente.»
Embora não fossem o objetivo principal, houve boas prestações, não só entre a elite, mas também nas equipas Handi, que «se desafiaram a fazer o maior número possível de voltas, mesmo durante a noite». Ao longo daqueles três dias, a liberdade foi total. «Alguns quase não param e vivem verdadeiramente a experiência da ultracorrida. Outros, que nunca tinham corrido mais de 15 km, acabam por fazer 50 km na montanha. É muito duro. Descobrem capacidades que nem imaginavam ter». Nada disto seria possível sem o dispositivo rigoroso montado para o evento e, sobretudo, sem a energia das equipas no terreno. «A organização está em todo o lado. Quando há pessoas a tratá-lo constantemente pelo seu nome, sente-se apoiado e acarinhado.»
Em agosto, os organizadores fizeram o balanço dos aspetos positivos e negativos dos dois eventos. «O nosso trabalho agora é olhar para tudo o que foi mágico e para o que precisa de ser melhorado. Mas foi um enorme sucesso junto dos corredores, das equipas Handi, das autarquias e da nossa equipa, que percebeu que também há eventos para organizar no verão». A inclusão está verdadeiramente no centro da iniciativa: «Queremos mostrar que correr com equipas Handi, mesmo sendo uma ultra e uma prova muito difícil, muda absolutamente tudo». Para já instalado em dois locais, este formato deverá certamente chegar a França, Itália, Suíça, Áustria, Alemanha e outros países. Desde o fim dos testes, os organizadores receberam vários pedidos de colaboração por parte das estâncias, prova do sucesso deste primeiro passo.
Mais mulheres na partida: um recorde absoluto
«O recorde que batemos e de que mais nos orgulhamos é o de 60% de mulheres no MDS 120, na Capadócia», conta o responsável pelo Marathon des Sables. «Em média, em todos os MDS 120, nunca tivemos menos de 50% de mulheres, algo inédito no mundo da ultracorrida». Estes números impressionantes não surgiram por acaso. Para lá chegar, foi desenvolvido um trabalho de fundo. Desde o lançamento do MDS 120, em 2017, a comunicação centrou-se nas mulheres, com o objetivo de lhes dar confiança nas suas capacidades: «Deixem de acreditar que a ultracorrida não é para vocês. É para vocês, e nós vamos prová-lo.» Para transformar as palavras em atos, foram implementadas medidas específicas para que as mulheres se sentissem plenamente integradas na prova. Em cada evento, têm acesso a todos os produtos de higiene feminina necessários. Agora, «já não fingimos que homens e mulheres são iguais». Desde 2024, o MDS Legendary disponibiliza tendas reservadas às mulheres, enquanto no MDS 120 todos os participantes têm tendas individuais. Estas medidas permitem que as mulheres se sintam mais confortáveis e seguras durante toda a prova.
Esta missão pela igualdade de género procura combater a ideia feita de que «as mulheres não foram feitas para a ultracorrida e não conseguem transportar uma mochila». Em 2017, a ideia de que as mulheres poderiam ter um desempenho tão bom como os homens nesta área era motivo de riso, e apenas 10% dos participantes eram mulheres. «Hoje, para nós, esta batalha está praticamente ganha. Alcançaremos o equilíbrio sem dificuldade, porque já ninguém dentro dos Marathons des Sables duvida de que as mulheres são tão capazes como os homens.» No MDS Legendary, o objetivo é chegar aos 50% nos próximos três a cinco anos, contra apenas 27% este ano. Cyril mantém-se confiante: «Quando provamos, através dos testemunhos de mulheres, que é possível, elas atrevem-se a experimentar». E, melhor ainda, chegam aos lugares cimeiros, como Maryline Nakache, quarta da classificação geral do MDS Legendary 2025.
O que conta é o lado humano. É poderoso, é real. Sentimo-lo na pele.
Uma forte aposta no desporto adaptado
Em outubro de 2024, dez equipas alinharam à partida do MDS 120, em Marrocos. Inesperada, a sua participação «foi um sucesso absoluto, porque os corredores adoraram». Perante as reações dos 600 a 700 participantes sem deficiência, a organização percebeu que «correr com pessoas com deficiência era muito mais forte e despertava uma vontade completamente diferente: a de ajudar e partilhar». Esta descoberta revelou-se um verdadeiro tesouro e levou os organizadores a afirmar-se nesta área.
Assim, o futuro MDS Handi, previsto para 2026, reunirá nada menos do que 50 equipas. Para garantir o bom funcionamento destas edições e dos restantes formatos que acolhem atletas do desporto adaptado, o investimento da organização é total. Ao comprar 60 cadeiras de rodas, o MDS tornou-se o maior investidor neste domínio. Em conjunto com a Société Bretonne e a Vipamat, desenvolveu uma cadeira reforçada, supostamente indestrutível. Ainda assim, se algo correr mal no terreno, está tudo previsto: «Temos uma oficina de cadeiras, com peças sobresselentes e técnicos presentes na prova, para que todos estejam em igualdade de circunstâncias e não tenham de se preocupar por terem partido uma roda». O único objetivo dos participantes deve ser competir, seja nas dunas ou na montanha. Esta missão de inclusão é longa e dispendiosa, mas a organização não vai afastar-se dela. «A nossa visão é mostrar que a inclusão faz sentido na corrida e que torna a prova ainda mais bonita: podemos correr de pé, mas também sentados.»
Quarenta anos depois, o Marathon des Sables continua mais atual do que nunca. Com os seus doze formatos, do ancestral Legendary ao Ultra, uma prova única de 100 km ou 100 milhas, à escolha, para aproveitar o céu límpido do deserto no inverno, limitada a 200 corredores e marcada para janeiro, passando pelo Raid Namibie, o 120 Handi, o Trek Maroc e os Crazy Loops, domina claramente o universo da ultracorrida, embora não necessariamente pelas mesmas razões que os seus equivalentes alpinos. Mantém o conceito inicial: partilhar um momento de aventura, não para desafiar os elementos ou provar a própria existência, mas para se divertir, desfrutar e regressar com os olhos a brilhar de deslumbramento. O MDS contraria as ideias feitas sobre si próprio. Não é apenas o calor e a areia que o definem, mas «sobretudo o calor humano» que dele emana.