Olivier Maria: «Orgulho-me de correr uma maratona de sandálias»
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Descobrimos o «personagem» Olivier Maria numa rotunda de Lille. Ao olhar melhor, percebemos que este apaixonado pela corrida e pelo ciclismo estava a correr uma maratona algo louca de sandálias. Fomos então conhecer melhor a filosofia de Olivier, por trás de uma imagem divertida e descontraída. Uma descoberta do minimalismo, sem travões na ambição: em outubro, vai lançar-se no desafio Dunkerque–Marselha!
A cada fenómeno corresponde um movimento contrário. A corrida é um mercado em plena expansão e a corrida ao equipamento tornou-se uma realidade. A maioria dos corredores está (ricamente) equipada. Como reação a este impulso, surgiu outra escola: os minimalistas. Também são chamados de «naked runners», segundo um artigo publicado pelo lequipe.fr em agosto. Olivier Maria não esperou que o fenómeno tivesse um nome para adotar hábitos mais simples. E, para levar a sua ideia mais longe, vai cumprir dentro de poucas semanas um singular Dunkerque–Marselha.
Olivier, como se tornou este corredor apaixonado?
Comecei a correr há dez anos, no final dos estudos. Foi em Grenoble, no meu último ano. Um amigo desafiou-me a ir correr para a montanha. Na altura, para mim, «correr» na montanha era impossível (risos). Experimentei com ele e apaixonei-me imediatamente. Comecei pelas distâncias clássicas, 10 km, meia maratona, e depois fui aumentando o ritmo. Fiquei muito interessado pelo tema, lia tudo o que podia, sobretudo sobre nutrição. O assunto continua a apaixonar-me (nota da redação: Olivier publicou um livro sobre o tema, Performer en mode cétogène). Como sabia que ia sair de Grenoble, aproveitei muito o último ano: tive uma verdadeira fome de trail. Quando cheguei a Lille, tive de me reinventar e voltar à estrada. Foi também nessa altura que descobri, ou melhor, redescobri, o ciclismo.
E aí, outro «clique»? O que procura nas longas distâncias?
Sim, enorme! Descobri o ciclismo de longa distância e fiquei imediatamente agarrado. Tudo começou com uma lesão. Foi em 2020. Estava a preparar-me para a Maratona de Valência e exagerei. Contraí uma fratura de fadiga, continuei a correr lesionado e foi um desastre. Para continuar a praticar desporto, peguei numa bicicleta. Pouco depois, dei por mim na Race Across France, que fiz duas vezes. Na altura gostava tanto de pedalar que tinha deixado de correr. Desde então, pratico as duas modalidades em paralelo. Quanto mais longa, melhor. Numa longa distância, atravessamos muitas fases diferentes. Mentalmente, é muito interessante passar tanto tempo em esforço. É preciso gerir uma série de coisas: sono, sestas, alimentação. E ainda ver todas aquelas paisagens a passar.
Quanto mais longa, melhor
No seu perfil do Instagram sobre a maratona na rotunda da Porte de Paris, vêmo-lo a correr de sandálias. Ficámos curiosos…
Digamos que as sandálias fazem parte do meu percurso. Sempre fui sensível à simplicidade. Corro com este equipamento há vários anos. Foi quando comecei a estudar a fundo a corrida que descobri esta prática, através de um artigo da «Clinique du Coureur». Dizia que não era preciso esperar vinte anos de corrida para corrigir alguns padrões de movimento e experimentar as sandálias. Fiquei convencido. A leitura do livro Born to run de Christopher McDougall também foi decisiva. Hoje corro com Panta sandals. Para contar a história toda, este verão visitei o criador da marca: fui de Lille a Amesterdão e voltei, 300 quilómetros de sandálias. A oficina fica em Haarlem.
Para lá da dimensão ética, sente que as sandálias também funcionam em termos de desempenho?
Ao meu nível, penso que sim! Corri a minha primeira maratona abaixo das 3 horas, em 2:58:18, em 2023, com umas Monk Sandals, o meu primeiro par. Talvez pudesse ser mais rápido com sapatilhas com placa de carbono, mas estou muito feliz assim. Orgulho-me até de correr uma maratona de sandálias. Ainda assim, como toda a gente, quando participo numa prova quero ser o mais rápido possível. O facto de não fazer tempos «vergonhosos» dá que falar e faz pensar. Sei que provoca reações no público e nos corredores. Correr de sandálias é uma abordagem singular. É preciso adaptar a passada, torná-la mais leve e curta e aumentar a cadência. Também temos de corrigir o comprimento da passada, porque atacamos menos com o calcanhar. O corpo adapta-se depressa. E, em cinco anos, não tive uma única lesão.
O centro do projeto «la France en courant» é sensibilizar para a simplicidade?
Sim, e as sandálias são boas embaixadoras para começar. Despertam a curiosidade de quem se cruza comigo, e usá-las é mais forte do que falar sobre elas. Apetece-me gritar ao mundo corram de sandálias, tal como me apetece gritar ao mundo não andem de avião! Mas tentar «vender» uma ideia é muitas vezes contraproducente. As pessoas fazem perguntas a si próprias. Eu estou aqui para lançar a pequena semente e incentivar aventuras sem dorsal. Com este Dunkerque–Marselha, que vou obviamente correr de sandálias, o meu objetivo é mostrar que uma aventura não exige necessariamente atravessar o mundo de avião. Acho interessante perceber que não somos obrigados a ir para longe para fazer grandes corridas. A aventura está à nossa porta. Podemos inventar as nossas próprias regras. Abrir um novo caminho, feito de liberdade. Mas atenção, não quero dar lições a ninguém. Todos vivemos com as nossas contradições. Tive a sorte de participar no UTMB em 2024 e foi um acontecimento muito importante para mim, por tudo o que representa. Ainda assim, há muitas coisas com as quais não me identifico quando lá estou. O lado comercial, sobretudo…