Romane Lemière: «O prazer antes da performance»
Publicado em qui., 10 de setembro de 2026
Atualizado em qui., 10 de setembro de 2026
Depois de lançar um primeiro livro sobre a anorexia, Romane Lemière, conhecida como @runromane nas redes sociais, dedicou-se à escrita de uma segunda obra, publicada em março. Em Mon Running plaisir avec Romane, a treinadora partilha uma série de conselhos e dicas para evoluir na corrida e cuidar de si, tanto a nível mental como físico. Esta maratonista, autora de um recorde pessoal de 2h44m42s em Berlim, em 2022, e seguida por mais de 86 mil pessoas, defende agora, acima de tudo, o prazer de correr.
Romane, qual era a sua ambição com este livro?
Queria ajudar todos os corredores, mas sobretudo os iniciantes, para que tivessem acesso a todos os conselhos necessários para começar a correr e esclarecer as dúvidas que normalmente surgem quando se começa na modalidade.
Como se sente hoje?
Hoje estou muito melhor. Passei por momentos difíceis: uma anorexia grave, seguida de uma depressão e de uma forte ansiedade social. Tudo isso dificultou a continuação dos meus estudos, por isso não tive um percurso académico tradicional. Mas, quando olho para trás, fico feliz por ter conseguido ultrapassar tudo. Finalmente, as coisas estão a entrar nos eixos. Foi preciso muita paciência.
Hoje ouço mais o meu corpo e a minha cabeça.
Quais foram as três coisas que aprendeu com essa paragem de vários meses na corrida?
Não vou esconder que, no início, foi muito difícil lidar com essa paragem forçada pela lesão. Foi, aliás, uma das razões da minha depressão, porque o desporto era a minha tábua de salvação. A corrida era a minha única atividade social. Por isso, quando tive de parar, precisei de aprender a viver de outra forma. Fez-me bem perceber que a vida não se resumia à corrida. Correr continua a ser um desporto, nada mais do que prazer.
Mantém um diário de corrida desde 2019. Em que medida isso a ajuda?
Foi o meu primeiro treinador que me pediu para manter um diário, onde registasse tudo o que sentia. Quando atravesso uma fase de dúvida ou de stress, ou quando falho um treino, por exemplo, consultá-lo tranquiliza-me e lembra-me que consegui fazer bons tempos apesar de ter falhado algumas sessões. Este diário permite-me guardar um registo do meu trabalho e, quando perco a confiança, é uma boa forma de visualizar a minha evolução.
Diz que Anaïs Quemener é uma inspiração para si. Porquê?
Sempre foi uma inspiração para mim, mesmo antes de ser conhecida. Conheci-a numa corrida em que chegou imediatamente à minha frente e comecei a segui-la nas redes sociais. Foi assim que descobri a sua história com o cancro e o regresso ao mais alto nível. Via-me um pouco nela: passou por fases muito difíceis e agarrou-se à corrida. Adoro a energia que transmite e a sua resiliência. Além disso, é uma corredora extraordinária, por isso é inevitavelmente muito inspiradora.
As redes sociais são prejudiciais para a saúde física e mental dos corredores?
Como em tudo, há coisas boas e más. Pelo lado positivo, as redes sociais são uma mina de ouro: encontramos muitos conselhos. Mas também é preciso saber manter alguma distância em relação a todo esse conteúdo, porque certas coisas podem fazer-nos sentir culpados. Sei que, quando vejo mulheres a correr todos os dias e a fazer grandes tempos, acabo inevitavelmente por me comparar e sinto-me uma nulidade. Isso pode levar ao excesso de treino e, por vezes, favorecer o aparecimento de lesões. É uma faca de dois gumes.
A sua experiência com a lesão alterou a forma como aborda o tema na sua conta do Instagram?
Sim, mudou. Acho que antes tinha tendência para defender a lógica do “sempre mais”. Adorava mostrar que fazia muitos quilómetros e que me desafiava constantemente. Hoje já não quero transmitir essa mensagem. Sofri as consequências de tudo isso sob a forma de lesões e não quero de todo passar essa imagem às pessoas que me seguem. Agora procuro mostrar o prazer de fazer desporto.
O que mudou entretanto na sua forma de treinar?
Hoje ouço mais o meu corpo e a minha cabeça. Antes, seguia o plano de treino cegamente: tivesse dores ou não, tivesse vontade ou não, ia correr. Hoje ouço o meu treinador e, assim que sinto uma dor, abrando. Agora corro quando me apetece. Gosto desta forma de funcionar, porque me sinto melhor mental e fisicamente.
Se tivesse de escolher apenas um conselho, qual seria?
Diria: «fazer as coisas por prazer». Se agirmos porque nos apetece, esse é o essencial para continuarmos atentos ao que sentimos.
Que provas tem planeado fazer?
Vou fazer a MCC, no dia 25 de agosto, no UTMB. São 40 km com pouco mais de 2.000 m de desnível positivo. É um grande desafio para mim, será diferente daquilo que costumo fazer, mas estou contente por me lançar nesta aventura. Depois, gostava de voltar à estrada: penso fazer os 20 km de Paris em outubro, o Marseille-Cassis no final de outubro e, quem sabe, uma maratona este inverno, para voltar a essa distância com menos pressão do que antes e mais prazer.
Quem foi a primeira pessoa a quem ofereceu este livro?
A minha irmã mais nova, porque me apoia sempre nos meus projetos e eu também a treino. Por isso, pareceu-me lógico oferecê-lo primeiro a ela.
Com « Mon Running plaisir avec Romane », Romane Lemière assina uma obra sincera e acolhedora, à sua imagem. Entre conselhos práticos e confidências pessoais, recorda-nos que correr não tem de rimar com performance a qualquer preço. O seu percurso, marcado pela resiliência, inspira outra forma de correr: mais livre, mais suave, mais alegre. Uma leitura preciosa para quem quer voltar a colocar o prazer no centro de cada passada.
➜ Mon running plaisir avec Romane, Editions Leduc, março de 2025, 19,90 €