Até onde pode chegar Sabastian Sawe na maratona? Por que o tempo de 1h59’30 pode ser apenas o começo
© BMW BERLIN-MARATHON

Até onde pode chegar Sabastian Sawe na maratona? Por que o tempo de 1h59’30 pode ser apenas o começo

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Por Clément Laborieux

Publicado em qua., 9 de setembro de 2026

Atualizado em qua., 9 de setembro de 2026

Há poucos anos, a pergunta parecia absurda. Correr uma maratona oficial abaixo das duas horas pertencia ao imaginário coletivo. Então chegou a Maratona de Londres de 2026 e tudo mudou. Sabastian Sawe em 1h59’30. Yomif Kejelcha em 1h59’41. Uma barreira pulverizada. Uma corrida histórica. O queniano completou a segunda meia maratona em 59’01, depois de já ter percorrido mais de 21 quilómetros a um ritmo que ainda parecia irreal há alguns anos. Mas, em vez de fechar um capítulo, esta prestação abre um novo. O próprio Sawe já anunciou que um dia quer correr em 1h58. O seu treinador, Claudio Berardelli, também considera que ainda há margem para evoluir. E quando olhamos mais de perto para o seu perfil, a sua experiência, o treino ou até o contexto em que alcançou este tempo, começa a surgir uma pergunta cada vez mais séria: e se o melhor de Sabastian Sawe ainda estiver para chegar?

Sabastian Sawe está apenas a começar a sua história na maratona

Este é provavelmente o elemento mais fascinante de toda esta história: Sabastian Sawe correu apenas quatro maratonas na carreira. Sim, quatro. Num desporto em que a experiência é muitas vezes decisiva para o desempenho, o número impressiona. A maratona é uma disciplina de exigência muito particular. Não basta ter talento e um motor fisiológico enorme. É preciso aprender a gerir o esforço, a nutrição, as variações do percurso, as sensações, o desgaste muscular, a fadiga nervosa… Durante muito tempo, os grandes campeões seguiram uma progressão quase clássica. Primeiro, a pista. Depois, a estrada. O percurso é conhecido no atletismo: desenvolver a velocidade nos 1.500 m, 5.000 m ou 10.000 m antes de passar progressivamente para as distâncias longas e para a maratona. O objetivo? Construir um perfil completo: a velocidade adquirida na pista, combinada com a resistência e a capacidade muscular necessárias para suportar a dureza da distância.

Eliud Kipchoge tornou-se campeão olímpico nos 5.000 m antes de dominar a maratona. Kenenisa Bekele reinou primeiro na pista, antes de se tornar uma referência na estrada. Sawe seguiu um caminho ligeiramente diferente. A sua equipa percebeu rapidamente que o seu potencial máximo estava nas longas distâncias. Por isso, passou mais cedo para a maratona. Tudo indicava que ainda estava numa fase de aprendizagem…

Quatro maratonas e uma trajetória já fora de série

Este é o balanço das suas quatro maratonas:

Maratona de Valência 2024: 2h02’05

A estreia na maratona. E já entre os melhores. Foi a segunda estreia mais rápida de sempre na distância, depois de Kiptum. O tempo foi vertiginoso e a expectativa disparou.

Maratona de Londres 2025: 2h02’27

Seis meses depois da estreia, dominou claramente a Maratona de Londres, à frente de um dos pelotões mais fortes da história, com Kiplimo, Mutiso, Tolat e Kipchoge, entre outros.

Maratona de Berlim 2025: 2h02’16

Na sua terceira maratona, alinhou num dos percursos mais rápidos do mundo. As ambições eram enormes e a corrida parecia feita para ele. Passou à meia maratona em 1h00’16, mas o calor acabou por obrigá-lo a abrandar. Ainda assim, venceu em 2h02’16. Muitos consideram este resultado subvalorizado, tal foi o impacto do calor na corrida. Alguns observadores já falavam de um potencial excecional que não conseguira expressar-se por completo naquele dia na capital alemã.

Maratona de Londres 2026: 1h59’30

Desta vez, tudo encaixou. Uma partida controlada e um final de corrida fenomenal, com 59’01 na segunda meia maratona. Kejelcha foi heroico e também terminou abaixo das duas horas. Em Londres, abriu-se uma nova página na história da maratona.

Quatro maratonas, quatro vitórias. E uma evolução impressionante. Em apenas dois anos, Sawe tornou-se o novo rei da maratona.

Grandes capacidades fisiológicas e maturidade precoce

Antes de se tornar um maratonista excecional, Sawe já tinha mostrado que possuía excelentes capacidades de velocidade.

10 km: 26’49 em 2023
Meia maratona: 58’02 em 2022

Estes tempos dizem algo essencial: Sawe não tem apenas uma resistência enorme. Também tem velocidade. Hoje, a sua carreira parece estar sobretudo centrada na maratona, mas é provável que, com a forma atual, possa melhorar os seus recordes nas distâncias mais curtas. Tudo indica, porém, que encontrou a sua especialidade. É na maratona que o seu perfil parece atingir todo o seu potencial.

Londres não é necessariamente a maratona ideal para bater um recorde

1h59’30. O mundo ainda está em choque. O que fica sobretudo é o tempo final da corrida. Mas, por vezes, esquecemo-nos do percurso. Londres é uma maratona imponente. Uma das Majors mais prestigiadas. Uma prova histórica. Um ambiente incrível. Mas não é necessariamente o terreno perfeito para correr o mais depressa possível. Sim, a primeira parte tem uma descida acentuada que ajuda a poupar energia, mas também pode deixar as pernas pesadas. Além disso, o percurso acumula quase 120 metros de desnível positivo.

Na maratona, os atletas procuram geralmente outra coisa: um traçado extremamente linear e muito plano. Cada retoma, cada mudança de ritmo e cada subida aumentam ligeiramente o custo energético. Nesse aspeto, percursos como Berlim, Valência ou Chicago continuam a ser mais favoráveis. Mas, naquele dia, havia algo de mágico no ar em Londres. As condições meteorológicas eram excelentes: cerca de 12 graus, um ligeiro vento a favor na fase final e aquela longa reta para terminar no coração da capital britânica.

Mas, para lá das condições, há um detalhe ainda mais intrigante. A sua segunda meia maratona: 59’01. Terminar tão forte depois de uma primeira metade já extremamente rápida pode deixar dúvidas. Quando um maratonista acaba com tanta força, isso por vezes significa algo simples: talvez tenha guardado demasiado no início. Ainda assim, ao passar a meia maratona em 1h00’29, o ritmo era bastante elevado, embora ligeiramente acima do recorde mundial. Foi com esta abordagem que a ciência do negative split se revelou por completo. Esta estratégia de pacing consiste em correr mais devagar na primeira metade da prova, poupar energia e terminar forte. Foi exatamente o que aconteceu em Londres com Sawe, e Kiptum tinha seguido a mesma estratégia em Chicago, quando bateu o seu recorde anterior (1h00’48 / 59’45). Mais uma prova de que as grandes maratonas se correm em negative split.

Berlim pode ser o lugar perfeito, mas…

Sawe já anunciou que estará na Maratona de Berlim em setembro. É difícil imaginar um cenário melhor para o vermos correr ainda mais depressa. Berlim é praticamente uma pista gigante desenhada no meio de uma cidade. Extremamente plana. Cerca de 65 metros de desnível positivo em 42,195 km. Um tapete. Rápido. Regular. O lugar onde Eliud Kipchoge construiu parte da sua lenda. O lugar onde os recordes caem regularmente.

Sawe já conhece bem a prova. No ano passado, apesar do calor extremo, ousou partir com um ritmo de recorde mundial. Desta vez, o contexto pode ser diferente e todos os fãs de corrida esperam condições meteorológicas mais favoráveis ao desempenho. O atleta da adidas chegará como a principal atração desta Major, também patrocinada pela marca alemã.

Mas em Berlim vai faltar um enorme fator X. Kejelcha já confirmou a presença na Maratona de Valência, em dezembro. E enquanto se aguarda a apresentação oficial do pelotão de elite de Berlim, há fortes probabilidades de Sawe correr sozinho a parte final da prova. Sabemos que os esforços a solo podem ser muito exigentes numa maratona. Além disso, na história da distância, nenhum atleta conseguiu bater duas vezes seguidas o recorde mundial. A tarefa será muito difícil, mas não impossível quando se chama Sabastian Sawe.

As sapatilhas também estão a mudar o jogo

Durante muito tempo, o desempenho na maratona dependeu sobretudo da capacidade do corpo e da mente para suportar a distância. Hoje, a equação mudou. Em Londres, Sawe, Yomif Kejelcha e Tigst Assefa usaram os três as novas adidas Adizero Adios Pro Evo 3. Menos de 100 gramas na balança. A sapatilha de competição para estrada mais leve do mercado. Um detalhe que faz uma grande diferença. Quanto mais leve é uma sapatilha, mais reduz o custo energético de cada passada.

É preciso dizê-lo: as supershoes modernas transformaram completamente a disciplina. Espuma ultrarreativa, geometria agressiva, placa de carbono e maior retorno de energia: as marcas de sapatilhas desempenham hoje um papel importante no desempenho. Mas existe também uma dimensão psicológica. Quando um atleta acredita que tem a melhor tecnologia disponível, isso pode mudar a forma como encara o esforço. Pode sentir que ganhou asas e permitir-se sonhar. E essa é, sem dúvida, a primeira etapa para uma corrida bem-sucedida.

Conheça as adidas Adizero Pro Evo 3: as supershoes de 97 g que acompanharam Sabastian Sawe abaixo das duas horas na Maratona de Londres.© adidas

A densidade: aliada ou armadilha?

Fala-se muitas vezes da densidade excecional da maratona atual. Em Londres, Kejelcha e Sawe correram juntos durante toda a prova e o resultado foi excelente. Dois homens abaixo das duas horas. Mas reunir muitos grandes corredores não garante automaticamente um recorde. Por vezes, a densidade pode gerar caos. Vimo-lo em Chicago, em 2025, quando Kiplimo e Korir, lado a lado, multiplicaram os ataques muito cedo na corrida. Acabaram por se desgastar um ao outro.

Para bater um recorde, a maratona exige geralmente outra coisa: um ritmo perfeitamente regular. Pacemakers disciplinados. Uma estratégia nutricional afinada ao milímetro. Concentração absoluta. E, se se formar um grupo suficientemente denso para repartir o esforço, esse pode ser o fator X decisivo. Desde que os atletas da frente respeitem as instruções e trabalhem em conjunto. Em Londres, Sawe assumiu uma grande parte das passagens pela frente. Kejelcha, estreante na distância, limitou-se sobretudo a seguir na sua roda. Em Berlim, o contexto será provavelmente diferente, talvez com mais pacemakers em redor de Sawe. Mas durante quanto tempo? A verdadeira questão surgirá depois do quilómetro 30. Como vai reagir quando ficar sozinho?

A evolução da maratona moderna também passa pela nutrição

Fala-se imenso das sapatilhas. Mas a maior revolução recente talvez esteja na nutrição. Em Berlim, Sawe consumia cerca de 105 gramas de hidratos de carbono por hora. Em Londres, cerca de 115 gramas. Números que ainda há poucos anos pareciam absurdos. Durante meses, treinou o sistema digestivo com os produtos do seu parceiro de nutrição, Maurten, para tornar possível este nível de ingestão.

Porque, na maratona, o problema não é apenas a capacidade de produzir energia. É também conseguir continuar a fornecê-la ao corpo em quantidade suficiente para manter o esforço. Terminar a segunda meia maratona em 59’01 não acontece por acaso. É o resultado de um trabalho de equipa minucioso e de uma estratégia construída ao longo de vários anos.

Durante muito tempo, correr abaixo das duas horas parecia impossível. Depois surgiu o projeto INEOS com Kipchoge. Hoje, temos Sawe. Existe um fenómeno bem conhecido no desporto: quando uma barreira psicológica cai, tudo muda. Roger Bannister foi o primeiro a correr a milha abaixo dos quatro minutos. Pouco depois, outros seguiram-lhe o exemplo. A maratona parece estar a entrar nesta nova era. Kipchoge abriu uma brecha. Sawe pode tê-la transformado numa autoestrada, com Kejelcha na sua roda. E, no fim de contas, a verdadeira questão talvez já não seja saber se alguém consegue correr em 1h58. Mas sim quando. Encontro marcado em Berlim, a 27 de setembro de 2026.

➜ Conheça todos os detalhes das adidas Adios Pro Evo 3 usadas por Sabastian Sawe na Maratona de Londres

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