Redes sociais: que impacto têm em quem está a começar a correr?

Redes sociais: que impacto têm em quem está a começar a correr?

Dorian Vuillet
Por Dorian Vuillet

Publicado em qua., 9 de setembro de 2026

Atualizado em qua., 9 de setembro de 2026

Strava, Instagram, TikTok… A corrida já não escapa ao olhar dos algoritmos. Na era do desporto conectado, as redes sociais não se limitam a acompanhar quem corre: influenciam os primeiros passos, ditam ritmos e reinventam motivações. Para o melhor… e, por vezes, até ao burnout.

À primeira vista, correr é uma modalidade bastante simples. Uns calções, um par de sapatilhas e vontade de ir um pouco mais longe. Mas em 2025, é difícil sair de casa sem a aplicação preferida, sem o relógio GPS e sem pensar numa pequena story depois do treino. Para quem está a começar a correr e acaba de entrar neste universo, esta camada digital acrescenta um fator inesperado: o olhar dos outros.

Num mundo onde tudo é «partilhado» – a refeição, o estado de espírito, os passos diários –, a corrida tornou-se também conteúdo. Resultado: as redes sociais influenciam cada vez mais diretamente a forma como começamos a correr. Motivam, orientam, aproximam… mas também podem causar stress, criar complexos e isolar. Como vivem os principiantes esta exposição? Que lugar ocupam os likes nas suas passadas? Entre a pressão social e o impulso coletivo, uma imersão numa prática tão conectada quanto fragmentada.

As redes sociais como gatilho

Para muitos corredores recém-chegados, as redes sociais não são apenas o cenário de fundo: estão na origem do próprio clique. Não é um treinador, uma vontade súbita ou uma resolução de Ano Novo que os leva a calçar as sapatilhas, mas a imagem recorrente de um amigo ou influenciador a acumular corridas no feed.

« Durante o confinamento, vi imensa gente a publicar os seus treinos. Pensei: se eles conseguem, porque não hei de conseguir eu? », conta Amel, 27 anos, community manager em Grenoble, que até então não praticava qualquer desporto. Um ano depois, terminou a sua primeira prova oficial de 10 km e passou também a documentar as próprias corridas. « Tornou-se um ciclo virtuoso. Publico, isso motiva algumas amigas, elas começam também e isso dá-me ainda mais vontade de continuar. »

Instagram e Strava substituíram, para alguns, os ginásios ou os grupos de amigos como ponto de partida para a prática. Um efeito dominó assumido pelas plataformas, que dão destaque a conteúdos ligados ao desporto, à evolução e à superação. Correr torna-se, assim, um ato partilhado, valorizado, quase “socialmente incentivado”.

No início, publicava cada corrida, cada pequeno progresso. Mas assim que fazia um tempo pior, já não me atrevia a publicar nada. Tinha a sensação de que as pessoas me iam julgar

Clément, corredor em recuperação

O efeito-espelho: correr pelos outros?

Mas esta dinâmica positiva também esconde uma zona cinzenta, onde a corrida começa a obedecer a outras lógicas: as da encenação, da comparação e até da performance social. Porque, depois de publicar a primeira corrida, é difícil regressar a uma prática mais discreta.

« No início, publicava cada corrida, cada pequeno progresso. Mas assim que fazia um tempo pior, já não me atrevia a publicar nada. Tinha a sensação de que as pessoas me iam julgar », explica Clément, 34 anos, que voltou a correr depois de dez anos sem praticar desporto. Do outro lado do ecrã, o público está em silêncio, mas é omnipresente. E esse olhar, real ou imaginado, influencia as escolhas: quantos quilómetros correr, a que ritmo e com que frequência.

A comparação torna-se inevitável. Observamos os outros, posicionamo-nos e julgamo-nos. Mesmo sem dar por isso. « Estive quase a desistir do Strava de tão inútil que me sentia. Os meus amigos faziam 10 km a 4’30/km e eu corria a 6’15 », desabafa Lucas, 22 anos. O prazer de correr pode rapidamente dar lugar a uma busca por legitimidade digital.

Lesões, frustrações… e uma desconexão que faz bem

De tanto tentar acompanhar o ritmo imposto pelos outros, ou melhor, aquilo que imaginamos que esperam de nós, alguns principiantes vão longe demais, depressa demais. A lesão fica à espreita e o excesso nunca está longe. Pierre, 25 anos, passou por isso: « Queria mesmo bater um segmento do Strava no meu bairro. Esforcei-me como um louco, apesar de ainda estar no início. Resultado: periostite e seis semanas parado. » Como ele, muitos descobrem que o algoritmo não conhece os limites humanos. Dá os parabéns a cada corrida, mas nunca diz quando é altura de descansar.

Paradoxalmente, é muitas vezes ao desligarem-se que os corredores reencontram o essencial. « Apaguei o Strava durante um mês. Corria sem relógio, apenas com uma playlist. Fez-me muito bem », conta Lucas. Sem retorno imediato, sem números e sem olhares exteriores, correr volta a ser uma atividade interior. E, para muitos, isso é um espaço de respiração necessário.

Publiquei que tinha corrido os meus primeiros 6 km sem parar. Recebi dez mensagens de raparigas que também estavam a começar. Encontrámo-nos para correr juntas e agora é o nosso ritual de domingo de manhã

Jade, membro de um pequeno grupo de corrida em Lyon

Uma força coletiva, quando bem utilizada

Felizmente, as redes sociais não são apenas uma fonte de pressão. Usadas com algum distanciamento, podem tornar-se um verdadeiro apoio. A capacidade de criar comunidades, aproximar corredores isolados e promover a entreajuda é preciosa, sobretudo para quem está a começar. Jade, lisboeta de 30 anos, passou por isso: « Publiquei que tinha corrido os meus primeiros 6 km sem parar. Recebi dez mensagens de raparigas que também estavam a começar. Encontrámo-nos para correr juntas e agora é o nosso ritual de domingo de manhã. » Estes pequenos grupos, muitas vezes informais, oferecem uma alternativa aos clubes tradicionais: mais livres, mais acessíveis e mais ajustados às novas formas de praticar.

Contas como a da RunMotion, clubes comunitários como os adidas Runners, ou grupos locais no WhatsApp também permitem a quem está a começar fazer perguntas, partilhar dificuldades e sentir-se menos sozinho. Quando a comparação dá lugar à solidariedade, o digital torna-se um verdadeiro trampolim.

Correr por si, de verdade

O verdadeiro desafio está aqui: conseguir preservar um espaço pessoal numa prática hiperconectada. Correr sem ter de o provar. Sentir orgulho nos próprios progressos, mesmo quando não aparecem no feed. Encontrar prazer no simples ato de nos mexermos, sem validação exterior. A corrida tem esta magia: não precisa de nada, ou quase nada. E, se as redes podem servir de apoio no início, não devem transformar-se numa muleta permanente. « Agora só publico aquilo de que me sinto realmente orgulhosa. O resto fica para mim », resume Amel. Um equilíbrio nem sempre fácil de encontrar, mas que muda tudo.

As redes sociais não são boas nem más para quem está a começar a correr. São poderosas. Podem ser fonte de motivação, descoberta e ligação, mas também difundem normas, exigências e dúvidas. O que conta é a forma como as usamos. E a capacidade de voltar ao essencial do que a corrida deve ser: um momento nosso, sem pressão, sem filtros e sem likes obrigatórios.

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